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domingo, 1 de março de 2015

A histeria despolitizada com a falta de água; ou a velha e boa manipulação da mídia

Por João Sette Whitacker, no Blog cidadesparaquem.org 
Agora que a ameaça da falta de água se abateu de vez sobre os paulistas, uma histeria coletiva tomou a população que, em sua maioria, curiosamente não deu atenção ao fato há alguns meses, ou não o achou importante ao ponto de impedir que referendasse no primeiro turno o principal responsável por tal tragédia.
Quando a vaca foi pro brejo (sem água) de vez, assistimos a uma sutil, mas como sempre bem orquestrada, despolitização dos fatos. De umas semanas para cá, a questão da água, ao ler a grande mídia, não é mais um problema do Estado de São Paulo, mas do Brasil, senão do mundo. Apressam-se em noticiar que o Rio de Janeiro também está colapsando. Alguns aventaram que a falta de água em SP é causada por desequilíbrios na Amazônia. A seca, sempre ela, ainda é o centro das atenções, embora aos poucos o regime de chuvas de fevereiro e março esteja se instaurando, nem tão fora do normal quanto se anunciou. Até o prefeito Haddad vem sendo culpado por dar mais atenção às bicicletas do que à soluções para trazer água de volta (aviso: o abandono da prioridade ao automóvel é uma das melhores medidas a longo prazo para atender à questão hídrica).
Sutilmente, editoriais e colunistas começam a "despolitizar" a questão no âmbito estadual, para "politizá-la" no âmbito mais geral. São todos culpados, do prefeito à presidenta, o que dilui, evidentemente, as responsabilidades. Eliane Brum, em (bom) artigo recente (clique aqui), chega a escrever, ao desolar-se por não termos uma liderança estadista, que "nosso desamparo é maior porque não temos essa figura nem no governo de São Paulo nem no governo do pais". E continua: "no Planalto, temos uma presidente vendida como gerente (...) mas que se mostrou uma má gerente ainda no primeiro mandato". Não estou aqui escrevendo para discutir de Dilma é boa ou má gerente, sequer para defendê-la. O que quero dizer é que sutilmente se desloca uma responsabilidade muito específica no âmbito estadual para uma dimensão genérica, a "dos governantes em geral", logicamente envolvendo a Dilma. A lógica é clara: se é para afundar o governador por causa da água, que afundem todos no mesmo barco (ou melhor, encalhem, não há mais água). Porém, neste caso, não há por onde escapar: a responsabilidade e prerrogativa da política pública de água em São Paulo, nos mais de 350 municípios que têm convênio com a mesma, é da Sabesp, empresa controlada pelo Governo do Estado, que achou por bem lançar ações na bolsa de NY enquanto que aqui deixava armar-se o mais escandaloso e criminoso colapso de gestão pública de que tenhamos notícias.
É claro que em tempos atuais, a delicada questão da água tem a ver com a escassez da mesma no mundo, tem a ver com as políticas federais, tem a ver com a seca, etc. Porém, que não nos façam de tolos: para além de tudo isso, a crise específica que São Paulo vive é de total responsabilidade do Estado, que formula as políticas, e da Sabesp, que as aplica. Por isso, querer a estas alturas, face à emergência do colapso, levantar todas as outras causas, estruturais e históricas, é um embuste. A seca até pode afetar o sistema, mas um bom sistema tem que ter planejado inclusive a possibilidade de secas.
Ora, o que menos vemos aqui é planejamento. Há alguns dias em seu blog (leia aqui), o jornalista Maurício Tuffani relembrou entrevista do professor de ecologia da USP Paulo Nogueira Neto, que alertava que "a água de SP está no fim" em....1977! Nosso colapso não surgiu do nada por causa de secas (previstas, aliás), longe disso. Há anos e anos que a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) vive o que se chama de "estresse hídrico", ou seja, gasta mais água do que é capaz de obter. Aliás, a RMSP gasta mais de quatro vezes a capacidade de captação de todo o Estado. São, pelo que sei, cerca de 70 mil litros de água consumidos por segundo. Nesse ritmo, com ou sem seca, não há sistema que aguente, embora, como lembraremos adiante, isso não seja nada ao lado do consumo industrial e agropecuário. E os políticos que governaram nosso Estado sabiam disso, há décadas.
É comum as pessoas acharem que não há muito a fazer, que isso é decorrência "natural" de uma urbanização acelerada e caótica. É assim em qualquer lugar, pensam. É um pouco o mesmo raciocínio de quem pensa que a desigualdade social na cidade é fenômeno "normal" decorrente de uma "urbanização acelerada". Não são, nem um nem outro. O gigantismo de uma cidade dificulta sempre as coisas, mas há inúmeras metrópoles que atingiram tamanho gigantesco sem por isso nem ter problemas com água nem apresentar as nossas disparidades sociais. Não, nada disso é "natural": é sim resultado de uma falta crônica de planejamento, de um descaso absoluto do Estado ou, melhor, de um planejamento "as avessas" em que o que se objetivou foi um sistema de privilégio aos mais ricos e de promoção da desigualdade que, algum dia, teria que colapsar. 
Ou seja, diante de um quadro que se evidenciava há tanto tempo, a obrigação do Governo do Estado era só uma: fazer o correto planejamento da política de abastecimento de águas, o que é muito, mas muito mais do que apenas construir um sistema de abastecimento (in)eficiente. Passava por trabalhar a gestão conjunta com os prefeitos da Grande São Paulo, montando um gabinete exclusivo para essa questão; por estruturar políticas de educação cidadã nas escolas, nas faculdades, nas repartições públicas, sobre o correto uso da água e a importância de sua economia; por criar políticas de incentivo ao reuso da água e à captação das águas pluviais em casas e condomínios; por refletir conjuntamente sobre as políticas municipais de regulação urbana para evitar a construção predatória que acaba com as nascentes e impermeabiliza o solo. E, sobretudo, por promover uma regulação do uso fenomenal de água pelas indústrias e o agronegócio, e estruturar uma política de captação de água em outras áreas, mais distantes às vezes, que se adiantasse ao crescimento da cidade, e não levasse o governo a correr atrás do prejuízo.Tudo isso deveria ter sido iniciado há pelo menos dez anos atrás.
Nova York, por exemplo, é famosa por ter realizado um planejamento a longo prazo e criado uma política de captação que vai buscar água puríssima em montanhas a centenas de quilômetros da cidade, sustentando com isso todo um programa de agricultura ambiental mas regiões de captação (leia aqui reportagem do Globo Rural). A cidade compra terras com antecedência, garantindo nascentes para suprir o crescimento da demanda. Enfim, a isso se dá uma nome: política pública bem realizada, planejada a longo prazo. Tudo que não tivemos e nem temos em São Paulo.
Aqui tudo foi bem diferente. Políticas públicas dessa magnitude apresentam a dificuldade de levarem tempo para serem operacionais. Nesse sentido, a possibilidade de continuidade de gestão, sem as interrupções que no Brasil, a cada quatro anos, levam ao desmonte de todas as políticas em andamento feitas pelo governo anterior, é um privilégio político invejável. Ora, o PSDB, ao conseguir manter-se por mais de duas décadas no poder, não tinha a obrigação, mas o dever de aproveitar-se dessa perenidade possível para estruturar políticas únicas no país. É o mesmo caso do metrô. Ao invés disso, deixou colapsar o sistema de abastecimento de água e fez um metrô a passo de tartaruga que hoje é cinco vezes menor que o da Cidade do México (iniciado na mesma época). E a mídia, em seu incrível esforço de blindagem, consegue desviar a atenção para um foco genérico em que a responsabilidade do Estado fica difusa. Um escândalo. Está certo falar da Petrobrás (pintando um quadro em que ela se afunda, o que está muito longe da realidade), mas não está nada certo que metrô e Sabesp, comparativamente, sumam do noticiário. Enquanto se transfere o "problema" da água para questões ambientais globais, a Sabesp, envergonhada, some com seu nome na fachada do cineclube que mantém em Pinheiros. Tenta ser esquecida.   
Aqui, nunca nada foi feito. A água sempre foi dada por abundante, e a Sabesp tratou a questão com soberba. Um exemplo simbólico, mesmo que menor, da sua maneira de agir: há vários anos, em Pinheiros, um prédio alto de luxo construiu tantos subsolos que a água do lençol freático, desviada, começou a brotar permanentemente na calçada. Seus moradores pensaram em um sistema para recuperá-la e utilizá-la para lavagem das áreas comuns e da própria calçada. Foram proibidos pela Sabesp, sob pena de multa. A água jorra até hoje. Mas a falta de planejamento é muito mais grave do que esse fato corriqueiro. Poucos sabem que o uso doméstico de água no Brasil corresponde a menos de 10% do total, e que aqui também a maior parte da água fornecida pela Sabesp vai para uso industrial e para o agronegócio. Mas nunca foi apresentado à sociedade um plano de longo prazo, sobre o consumo e a responsabilidade dessas empresas, que estas sim consomem MUITA água. Quase 2 milhões de metros cúbicos ao mês. E sequer se sabe quanto elas pagam ou quanto gastam, a Sabesp dando-se o direito de recusar, em mais um ato escandaloso, a difusão dessas informações (leia aqui). Então, é claro que é importante você economizar água na hora escovar seus dentes, mas, convenhamos, soa pequeno se sequer sabemos o que as empresas, as grandes consumidoras, estão de fato fazendo nesse sentido, em processos que representam alguns milhões de escovações.  
A Sabesp, aliás, perde mais de 30% da água que distribui, boa parte em vazamentos de seus canos. Verdade seja dita, esse é um problema de difícil controle e solução, e é assim em muitos países (a França tem perdas de cerca de 20% - veja aqui - e o Canadá, sujeito a variações térmicas fenomenais, de cerca de 15%). Mas cobrar do cidadão apavorado multa de R$ 1000,00 de quem desperdiçar água, como votaram os vereadores de SP recentemente, sem votar ao mesmo tempo ao menos uma campanhazinha de conscientização, quando a própria empresa não consegue resolver seu enorme desperdício, soa injusto.
Outra argumentação que de repente volta ao noticiário como grande vilã da falta de água é a da "urbanização predatória" de São Paulo e sua região metropolitana. É a pura verdade, mas, no meio dos urbanistas do qual faço parte, há décadas que alertamos sobre os efeitos maléficos da urbanização descontrolada, em que o mercado da construção civil faz mais ou menos o que quer onde quer, sem que seja dada lá muita atenção ao nosso esforço. Impermeabilização do solo, construção irrestrita com subsolos ambientalmente criminosos (como os andares de estacionamentos dos shoppings), desarborização, etc, etc, são atos que de fato têm consequência, irremediavelmente, sobre a permeabilidade do solo e o escoamento das águas, afetando a captação pelos rios e a alimentação dos mananciais.
Mas isso vem ocorrendo há anos, e quando apontava-se para o fato, ninguém deu muita bola. Prova disso a relativa indiferença que causou aos paulistanos um dos maiores escândalos já vistos nesse âmbito, que implicou muito de perto o nosso atual Ministro das Cidades. Sob sua gestão, o Diretor Geral de Aprovações da cidade montou uma verdadeira máquina de propinas para negociar novos empreendimentos. Até hoje não se foi a fundo nessa investigação, que curiosamente sumiu do noticiário (seria porque o ex-prefeito é agora ministro?). Os paulistanos pouco se opuseram ao estranhíssimo fenômeno de geração espontânea de shoppings na cidade (mediante bons pagamentos, como denunciou gente de uma das construtoras), ocorrido ao longo da última gestão, sem querer atentar que, ao mesmo tempo que garantem suas compras e finais de semana enclausurados, esses edifícios gigantescos contribuem, e muito, com a tal "urbanização predatória" e a falta de água.
Então, a histeria que agora tomou conta da cidade é um pouco deslocada, principalmente quando vêm das classes mais altas, que mais contribuem para o consumo de água (os grandes condomínios, mansões, carros a lavar, etc. etc.). Ao acusar tudo e todos, escamoteia o principal. Sim, nossa urbanização e nossa sociedade elitista e hiperconsumista ajudam para acabar com a água do mundo, mas nosso problema é um grave e inaceitável fiasco local de gestão, cujas responsabilidades devem ser cobradas. Dizem que em Araçatuba uma senhora atirou o carro contra outra moça que lavava a calçada. "A água do mundo está acabando!", gritou (sem sequer saber se a água da lavagem por ventura não era, por exemplo, de reuso, e sem atentar para o a insustentabilidade do uso do carro - talvez para ir ao shopping). A falta de água no mundo substituiu no imaginário coletivo a incompetência e improbidade da Sabesp e do Governo do Estado e suas secretarias.
Também é verdade que governo federal e municípios têm sua parte de responsabilidade, já que parte da gestão é compartilhada (como no caso do sistema cantareira em que algumas das represas são de gestão federal) e que a competência sobre o uso do solo é municipal. Mas, ainda assim, não se pode equiparar o nível de responsabilidade de cada um.Os Comitês de Bacias Hidrográficas, criados em 1988 junto com o Sistema Brasileiro de Gerenciamento de Recursos Hídricos apontaram um bom caminho para a gestão das águas. Mas, como muitas coisas em nosso país, salvo poucas exceções, se perderam nas disputas políticas e na burocratização.
É claro que precisamos economizar. É claro que este tipo de problema, quando se torna tão grave, passa a depender da ação individualmente responsável de cada cidadão. Mas, como sempre, a falta d´água os afetará de maneira bastante desigual. Os bairros ricos, consolidados,de baixa densidade habitacional, com caixas d´água enormes e funcionais, sobreviverão com algum desconforto ao racionamento e não terão problemas em comprar caminhões-pipas se necessário. Os mais pobres, porém, é que sofrerão, como diz a urbanista Marússia Whately em excelente texto (clique aqui):
"Uma coisa são cinco dias de racionamento em bairros consolidados e bem estruturados do centro expandido, com situações mais previsíveis. Outra coisa, bem diferente, é o racionamento em locais como a zona leste, com áreas inteiras de ocupações informais, poucas caixas d’água, vários moradores por casa, pessoas que costumam sair muito cedo para o trabalho e retornar às vezes muito tarde por conta do tempo no transporte (o que pode significar não estar em casa em nenhum horário de fornecimento de água)".
A prefeitura tem seu papel nisso. Já começou a agir quando reuniu os prefeitos da Região Metropolitana para emanar uma posição comum. Será melhor ainda se elaborar um plano de contingência e regular a maneira como se dará o uso racionado na cidade. Melhor seria se dispensasse de vez os serviços da Sabesp, municipalizasse o sistema e estruturasse uma política de gestão autônoma em parceria com os municípios da Região Metropolitana (melhor eu parar de sonhar). É claro que todos nós devemos nos envolver nesse mutirão de contenção. Mas uma coisa deve ficar clara: tudo isso são esforços meramente conjunturais, e não resolverão a situação da cidade, mesmo que comece a chover. Vale reiterar: falta água no mundo, mas o que estamos falando aqui é da falta de água na metrópole paulistana em decorrência de um colapso de gestão. São coisas bem diferentes. E a economia individual de cada um ao escovar os dentes e tomar banho, coisas que deveriam ser práticas preconizadas por políticas de conscientização da Sabesp há tempos, poderão ajudar um pouco, mas não resolverão o problema.
A grande questão é saber qual a "solução" que está por vir. Pois uma coisa é pouco falada: a Sabesp, como empresa com ações na bolsa de NY, com 51% delas em poder do Estado de São Paulo, é uma empresa quase privatizada. A desmoralização que ela enfrenta, por sua incapacidade de gestão, tem poder para abater o preço de suas ações, e até para ser condenada pela justiça norte-americana. Um passo muito pequeno para que surja, em uma sequencia quase previsível, o discurso de uma necessária e "eficaz" privatização total. Sabemos que companhias de águas - em especial europeias - interessam-se e muito pelo mercado brasileiro, o que dizer então da uma das maiores metrópoles do mundo. Quem viu o documentário "The Corporation" (recomendo) sabe do exemplo histórico de Cochabamba e o modus operando dessa empresas. Se estamos mal, ainda estamos longe de onde se pode chegar na privatização da água e sua transformação em mercadoria, escassa para os mais pobres.
Enquanto isso, o esforço genuíno dos cidadãos, responsáveis por pequena parte do uso total de água,  e que parecem resignar-se com a situação, soa ainda mais ineficaz enquanto o Governo e a Sabesp não apresentarem um plano - público - de curto, médio e longo prazos para a recuperação da capacidade de provisão de água na metrópole. O que passa, evidentemente, por indicar o que está sendo feito para conter os 70% da água fornecida para uso industrial e para o agronegócio. Senão estamos fazendo papel de bobos. E ao mesmo tempo ajudando, ao assimilar sem protestos uma campanha erroneamente centrada no usuário comum e na sua "culpa" pelo desperdício, a fortalecer a blindagem que, espantosamente, protege o governo e sua empresa de água. A cidade pode sim ter água, e temos o direito de saber como isso será feito. O que me espanta é que São Paulo tenha mostrado energias para uma maravilhosa e histórica mobilização contra 20 centavos a mais no preço dos ônibus, mas parece resignar-se à economizar água sem mover uma palha para protestar contra o descalabro de terem deixado secar a quarta maior metrópole do mundo. 

quinta-feira, 12 de fevereiro de 2015

Já se imaginou estudando em uma instituição Federal Pública, Gratuita e sem precisar prestar vestibular? Sua Chance no IFPR Câmpus Londrina

Venha para o IFPR Câmpus Londrina participar do Sorteio Público de vagas para Cursos Técnicos e Superior:
Foi publicado no site da FAUEL os Comunicados de Chamada Pública para Sorteio de Vagas nos cursos técnicos subsequentes e no Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas do Câmpus Londrina do IFPR.
A chamada pública para preenchimento de vagas nos cursos técnicos de Enfermagem, Massoterapia, Saúde Bucal e Prótese Dentária ocorrerá no dia 23 de fevereiro de 2015, às 14:00hs, cujos detalhes e informações poderão ser visualizadas e conferidas no Comunicado: [Clique Aqui].
Já a chamada pública para preenchimento de vagas no Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas ocorrerá no dia 24 de fevereiro de 2015 às 14:00hs, cujos detalhes e informações poderão ser visualizadas e conferidas no Comunicado: [Clique Aqui].
Na mesma publicação, foi disponibilizada a lista da 1ª Chamada Complementar para os demais cursos, cujas informações podem ser acessadas nos links do Edital do Processo Seletivo do Ensino Médio [Clique Aqui] e do Ensino Superior [Clique Aqui].

Fonte: londrina.ifpr.edu.br 

A Lava Jato à luz de Hannah Arendt

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Se o leitor prestou atenção aos meus posts sobre o assunto, verá que fiz um esforço heroico para acreditar na Operação Lava Jato.
Minha relação com a Lava Jato foi bipolar, pois eu não queria acreditar que testemunharíamos mais uma sequência de arbítrios protagonizados por autoridades cegas pelos holofotes da mídia.
As relações promíscuas entre essas autoridades do Lava Jato e a oposição sempre estiveram em evidência.
Primeiro, o flagrante patético dos delegados da Lava Jato xingando Lula e Dilma nas redes sociais.
Segundo, descobrimos que a esposa do juiz Sergio Moro trabalha para o PSDB, e que ele mesmo foi estagiário e depois testemunha de defesa, de um tributarista condenado por associação com um prefeito tucano corrupto do interior do Paraná.
Terceiro, um blogueiro nos revelou a história de que o pai de Sergio Moro é um antipetista sectario e raivoso, a ponto de nunca mais entrar numa locadora de video, apenas porque descobriu que o seu gerente votava no PT.
Quarto, o advogado de Alberto Youssef, pivô de todo o esquema da Lava Jato, o senhor Antonio Augusto Lopes Figueiredo Basto, trabalhou por anos no Conselho da Sanepar, a companhia de saneamento do governo do Paraná, estado governado pelo PSDB.
Quinto, o próprio Alberto Youssef foi durante toda a sua vida um dos principais operadores do PSDB.
Os executivos “delatores”, por sua vez, também são ligados ao PSDB.
O primeiro a “piar”, após a estratégia da República do Paraná, de manter os executivos presos por tempo indeterminado, foi Augusto Ribeiro de Mendonça Neto, um dos sócios da Toyo Setal, e primo de um tucano de alta plumagem, Marcos Mendonça, presidente da Fundação Anchieta.
Mendonça Neto participa de esquemas tucanos desde meados dos anos 90, entre eles o já famoso “trensalão”.
Júlio Camargo também é da Toyo Setal, empresa envolvida até o pescoço no trensalão tucano.
O próprio Pedro Barusco, eleito a categoria de heroi pela mídia e pelas autoridades da Java Jato, após denunciar o PT, mesmo sem apresentar uma mísera prova, também fez escola na era tucana, vide que ele confessa que recebe propina, em negócios da Petrobrás, desde 1997.
Pedro Barusco era diretor operacional da Sete Brasil, controlada pelo BTG, que pertence ao ultra-tucano Andre Esteves, o mesmo que pagou a viagem de lua de mel para Aécio Neves em Nova York.
Entre os executivos presos, tanto das empreiteiras quanto da Petrobrás, não há nenhum petista ou com histórico na esquerda.
Paulo Roberto Costa, funcionário da Petrobrás desde a década de 70, foi indicado pelo PP (legenda que, apesar de compor a base governista, é ideologicamente muito mais próxima do PSDB e DEM, do que do PT), e vinha crescendo na estatal desde a era FHC.
Esses são os que “confessaram” crimes. Renato Duque é acusado de muitas coisas, mas ainda não confessou nada e não foi condenado.
*
O espetáculo promovido ontem fez cair a máscara de Sergio Moro?
Sim.
Tendo em vista que não havia necessidade de nenhuma decisão “coercitiva” para levar o tesoureiro do PT, João Vaccari Neto,  a prestar depoimento, a operação visou apenas a mídia e constituiu uma arbitrariedade.
Neto é um dos mais importantes dirigentes políticos do partido que governa o Brasil, tem residência fixa, e jamais se recusou a depor na Justiça. Cúmulo da truculência: não há sequer nenhuma acusação formal contra Vaccari.
Por que a violência? Por que o arbítrio?
Porque era preciso estabelecer uma narrativa.
O depoimento “coercitivo” de Vaccari foi o único, entre dezenas de outros, todos arbitrários também, diga-se de passagem, visto que ninguém se recusou a depor, em momento algum, foi o único vazado de manhã cedo para a mídia.
Portais e telejornais noticiaram que agentes da PF tiveram que pular o portão da casa de Vaccari. Uma mentira.
O Jornal Nacional dedicou 20 minutos à Lava Jato, citando o nome do PT mais de 30 vezes. Fez acusações pesadíssimas contra o partido baseado num depoimento de uma pessoa declaradamente corrupta, que não apresentou nenhuma prova.
Aliás, diversas denúncias feitas até agora pelos delatores não trouxeram nenhuma prova.
Parece um roteiro pré-determinado. Sergio Moro lidera um espetáculo midiático na quinta-feira, com tempo de pegar os políticos de oposição ainda em plenário. Na sexta-feira, a bomba vai para a manchete de todos os jornalões. No sábado, para as revistas semanais. No domingo, chega ao Fantástico.
E assim a semana se inicia sob fortíssimo bombardeio midiático.
Ninguém se preocupa com um detalhe: a delação premiada deveria ser feita em sigilo absoluto, exatamente para não permitir que bandidos confessos se utilizem desse instrumento para se vingar de seus desafetos, ou pior, exercer ou traficar influência política.
Ao invés de me torturar lendo os espasmos golpistas dos jornalões, passei a noite e a manhã de hoje, lendo um capítulo do livro As Origens do Totalitarismo, de Hannah Arendt. É o capítulo que fala do Caso Dreyfus, o oficial judeu condenado pela Justiça Francesa por alta traição, mas que era inocente.
Há muitas semelhanças. Eu já havia abordado o caso Dreyfus ao discutir o caso Pizzolato, o petista do Banco do Brasil condenado no mensalão por algo que não fez, não podia ter feito, não tinha sequer instrumentos para fazê-lo.
Hoje eu vejo que o verdadeiro Dreyfus contemporâneo não é Pizzolato, mas o PT.
Arendt aponta o caso Dreyfus como uma das feridas nunca totalmente fechadas da história política e judicial da França, e que serviriam de caldo cultural para a explosão do nazismo europeu.
Assim como o mensalão e agora o petrolão, o caso Dreyfus envolveu uma conspiração entre mídia e judiciário.
A mídia francesa da época, assim como a brasileira, atiçou todos os preconceitos e rancores do populacho (mob, em inglês) contra Dreyfus e seus defensores, que de início eram uma minoria ilustre.
Também a França vivia sob o impacto de um grande escândalo de corrupção no parlamento: o escândalo do Canal de Panamá.
Um jornal reacionário e antissemita alcançara uma tiragem recorde após denunciar o clamoroso escândalo de propinas pagas a parlamentares e lobistas, como “comissão” aos financiamentos que o Estado francês dava à Companhia do Panamá.
Igualzinho hoje. A Companhia do Panamá era um pool de empreiteiras, que viviam do dinheiro do Estado, assim como as nossas. Para ser justo, assim como todas as empreiteiras do mundo.
Os deputados franceses haviam encontrado os métodos que deveriam pôr em prática. Nas palavras de Arendt: “a política correta era a defesa de interesses particulares e corporativos, e o método adequado seria a corrupção. Em 1881, a tramoia tornou-se a única lei”.
Entretanto, não foram os deputados que tomaram a iniciativa de usar o caso Dreyfus como uma estratégia de poder. Eles surfariam na onda, satisfeitos de ver a atenção pública olhar para outro lado. A mesma coisa vale para a maioria dos nossos corruptos. É reconfortante para eles ver a mídia apontando o dedo apenas para o PT.
No caso dos empreiteiros presos, o juiz já sinalizou: apontou o dedo para o PT, está solto. Não apontou: prisão por tempo indeterminado, com ameaças veladas contra toda a família.
Na França, o golpe contra Dreyfus veio dos estamentos burocráticos e meritocráticos, onde a elite  descendente do ancien regime, falida pelas revoluções, havia se refugiado, e onde procuravam se vingar pela perda de seus privilégios. No caso francês: o exército e o judiciário. No Brasil, o MP, PF e Judiciário, também histórico refúgio de antigas e decadentes elites nacionais.
A mídia, como sempre, cumpriu o papel de instrumento da classe dominante, ontem e hoje. A Companhia de Jesus, os jesuítas, que dominavam o alto clero da época, foi a principal articuladora política do movimento contra Dreyfus. Nossos “jesuítas” de hoje são os tucanos e moralistas de ocasião da mídia.
Arendt lembra que os socialistas demoraram a se enfileirar ao lado dos “dreyfusard” (os que defendiam Dreyfus), e mesmo assim vieram divididos, porque viam nisso apenas uma escaramuça da alta burguesia.
Apenas quando Clemenceau convenceu o grande líder socialista Jean Jaurès, de que a injustiça praticada contra um era uma injustiça contra todos, é que este último aderiu à causa, e mesmo assim, não com os argumentos que, segundo Arendt, seriam os mais corretos, a defesa da justiça e da dignidade humana, mas com argumentos classistas, visto que aristocracia e alto clero lideravam o movimento contra Dreyfus.
O erro dos socialistas franceses me parece o mesmo cometido pelo PT, por ocasião do mensalão.
E a mesma desconfiança dos trabalhadores franceses, contra um problema que parecia se limitar a uma divergência doméstica das classes dominantes, vimos também surgir entre os petistas e na esquerda em geral, quando estes se defrontaram com a Ação Penal 470 e, agora, com a Operação Lava Jato.
Tanto o mensalão quanto o petrolão levaram figuras dominantes da política e do capital à cadeia.
O que foi vendido pela mídia brasileira como um “avanço” democrático, não passa de uma tática recorrente do arbítrio para empolgar o populacho, desde os primórdios da história. Todas as ditaduras, explícitas ou disfarçadas, fazem isso.
É o que tentam fazer agora novamente.
As próprias elites entendem que é preciso sacrificar alguns de seus mais queridos empregados, a fim de assegurar o poder no longo prazo.
Por ocasião do julgamento da Ação Penal 470, os colunistas da grande mídia, e depois até mesmo alguns ministros do supremo, batiam na tecla que não era possível decepcionar a expectativa da “opinião pública”.
Sequer escondiam a descarada solapagem do Estado Democrático de Direito, em nome de uma vulgar e covarde rendição a um populacho manipulado pela mídia.
Arendt explica a diferença entre esta “opinião pública”, ou “populacho”, e o povo
propriamente dito. O populacho é a representação dos setores frustrados de todas as classes sociais. Pobres, classe média e ricos insatisfeitos com a representação política, prontos a aderirem a qualquer aventura golpista: este é o populacho de todas as eras. Eles têm uma opinião instável, cambiante, mas com uma propaganda bem planejada, é possível orientá-lo na direção certa, enquanto este for útil.

Não é difícil para a mídia, num segundo momento, descartar o populacho, com desprezo, tratando-o como uma massa desorganizada e inculta.
Onde estão os protestos inflamados de juristas e ministros do supremo contra as arbitrariedades da polícia?
Quando prenderam Daniel Dantas, e a PF começou a realizar uma série de operações para combater sobretudo crimes financeiros e sonegação (Daslu e automóveis de luxo, lembram?), um grito desesperado tomou conta das elites, através da mídia: é o Estado Policial!
Gilmar Mendes aparecia diariamente nos jornalões para bradar contra isso, e até mesmo urdiu uma trama, em parceria com o senador Demóstenes Torres (mais tarde defenestrado por corrupção), para inventar um grampo de seu telefone, e criar um escândalo que iria derrubar o diretor da Polícia Federal, Paulo Lacerda.
A derrubada de Paulo Lacerda representa um momento chave da política brasileira contemporânea, porque, aparentemente, é a partir daí que a Polícia Federal toma um caminho diferente: ao invés de investigar a sonegação das grandes empresas, que contam com a cumplicidade da mídia (também grande sonegadora, como vimos), a PF voltou suas baterias contra agentes do Estado. E aí ela, a PF, passa a contar com entusiástica cumplicidade da mídia.
Não há nada de errado na PF se voltar contra agentes do Estado. Ao contrário, é até saudável.
Errado é a PF entrar no jogo da mídia, promovendo vazamentos seletivos e espetáculos que visam apenas interferir no debate político-partidário.
Também já especulei sobre a tendência do Ministério Público em desenvolver um sentimento de oposição ao Executivo – um sentimento que é primo de seu orgulho corporativo.
Entretanto, se o Executivo não reage, tanto a PF quanto o MP avançam o sinal, e transformam-se em instrumentos de arbítrio, sob forte influência da mídia.
*
Para piorar o quadro, o governo permanece num silêncio aterrorizante.
Uma mera intervenção oral de Dilma, ou de seu ministro da Justiça, nem que fosse para pontuar o debate com algum comentário irônico ou crítico sobre a violência judicial cometida contra o tesoureiro de seu próprio partido, João Vaccari Neto, ajudaria a dar algum equilíbrio à crise política.
(PS: Menos mal que o ministro da Comunicação, Ricardo Berzoini, manifestou-se sobre o tema).
Mas essa postura vem desde a Ação Penal 470. Ao sacrificarem Henrique Pizzolato, por exemplo, o partido sacrificou o próprio Estado de Direito.
Assim como Dreyfus era ridicularizado por seus adversários, e mesmo por seus amigos, porque ostentava arrogantemente a riqueza de sua família e a quantidade de dinheiro que gastava com mulheres e bebidas, assim os “amigos” de Pizzolato se negaram a defendê-lo porque ele usava “ternos caros”, gravatas borboleta, e conseguira juntar dinheiro para comprar imóveis.
A AP 470 fez escola. O “Estado de Direito” começou a ruir ali, e não agora, com o depoimento “coercitivo” de João Vaccari Neto.
Todos os métodos usados na frente midiática durante o mensalão estão sendo repetidos agora. Os jornais criaram uma nova alcunha, o “petrolão”, que já se tornou aba ou chapeu em todos os portais.
Jamais a nossa mídia criou alcunha ou abas editoriais para a compra de votos para a reeleição de FHC, para o trensalão, para o Banestado, ou pelo menos nada que durasse muito.
*
O PT anuncia que “entrará na Justiça” contra Pedro Barusco, pela denúncia contra o partido.
Está certo, tem que fazer isso mesmo.
Porém mais uma vez o partido foge da política, única instância onde é um protagonista, e tenta se refugiar sob as asas do judiciário, onde a mídia tem mais influência.
A política é o único palco onde o PT pode ganhar, porque é a legenda com maior número de filiados no país, várias vezes superior a todas as outras. Seus presidentes, sobretudo Lula, ainda são as figuras públicas mais populares da nossa história, até hoje. É o partido com maior número de deputados na Câmara Federal. O partido que tem mais ministros, incluindo o Ministério da Comunicação e da Justiça. Tem a presidência da república. É o único partido que tem uma militância orgânica de massa, real e digital.
Por que o PT foge da luta política?
A impressão que eu tenho é que o PT esqueceu o que é fazer política.
Até mesmo alguns militantes esqueceram o que é fazer política. Alguns falam, incluindo Lula: temos que ir às ruas, como se bastasse vagar perdido por aí, sem saber o que dizer, para obter qualquer resultado prático na política.
A política, numa democracia, é, antes de tudo, uma luta intelectual, que deve ser travada através da persuasão.
Para isso, é preciso investir em cultura.
Somente a cultura pode salvar a política brasileira.
A cultura é o deus ex-machina que pode nos salvar da barbárie para onde a mídia está nos arrastando.
Por exemplo, nos EUA, existem centenas de filmes e livros sobre os arbítrios da mídia. A começar pelo primeiro filme do cinema moderno: Cidadão Kane, uma terrível denúncia contra o monopólio e a concentração de poder em mãos de poucos.
Aqui, são raríssimos as obras de arte que abordam a questão da mídia, apesar dela ser, desde os anos 50, o principal ator político do país.
A campanha contra a criação da Petrobrás, o suicídio de Vargas, as marchas da família, o golpe de 64, a sustentação da ditadura, o poder das oligarquias nordestinas, o antipetismo do sudeste, mensalão, petrolão, a mídia é sempre o protagonista.
Por que não são escritos ou filmados livros, séries, filmes, novelas sobre o tema?
Por que o governo, principal patrocinador da cultura, nunca abriu editais voltados especificamente para a crítica de mídia?
Alô, Juca, agora não podemos mais perder tempo!
O governo, por sua vez, encontra-se paralisado, indeciso, com o pior sistema de comunicação dentre todos os poderes.
O Legislativo, Câmara e Senado, tem ótimos portais, com várias TVs, e os próprios parlamentares agem como porta-vozes de si mesmos.
O MP criou até uma historinha do mensalão para crianças…
Já o Executivo tem uma comunicação dispersa, fragmentada, negligente.
Todos os presidentes da república, em todo mundo, externam pontos-de-vista e intervêm constantemente no debate político. Falam e escutam, junto com seus ministros. Aqui, não.
Há dias em que os únicos representantes do Estado que falam de política na mídia são ministros do Supremo, ou seja, justamente aqueles que são proibidos pela Constituição de exercer atividade politico-partidária.
E agora toda a política nacional volta a girar em torno de um juiz tratado como heroi pela mídia – já ganhou até o prêmio da Globo – e cercado por todos os lados de conspiradores golpistas.
A democracia brasileira se vê, mais uma vez, a mercê de arbítrios judiciais e conspirações midiáticas.
O problema da política é a sua dinâmica desesperada. Tudo acontece rápido demais para que o bom senso prevaleça.
A análise ponderada, objetiva, fria dos fatos, nunca chega a tempo, de maneira que os homens se tornam como que cobaias de si mesmos. No médio e longo prazo, as coisas tendem a se equilibrar, mas quantas revoluções, guerras, tragédias, golpes, não foram necessários para chegarmos onde chegamos?
Enfim, dá vontade de forçar o relógio da história em alguns anos, quiçá décadas, para vermos logo o que será do país quando as novas gerações, mais saudáveis, mais bonitas, melhor alimentadas, mais escolarizadas, mais livres, tão distantes da neurastenia forçada e hipócrita do antipetismo midiático, ainda mais distantes desse conservadorismo quase sociopata de alguns medalhões do jornalismo, o que será do Brasil quando esta geração tomar o poder?

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quarta-feira, 11 de fevereiro de 2015

Petrobrás, por Delfim Netto



Os portadores da opinião que o ente metafísico a que se dá o nome de mercado é divino, vêm a sua materialidade nas cotações das Bolsas. Trata-se de pura ideologia.

Deixem o mercado trabalhar livremente e ele, por si mesmo, encontrará "naturalmente" o equilíbrio gerador da estabilidade e da prosperidade! A Bolsa de Valores foi a fonte da expansão que criou o "capitalismo": a generalização da sociedade anônima; a acumulação do capital necessário para financiar empreendimentos arriscados com ações que repartem o risco e simultaneamente lhe dão liquidez; a criação dos bancos que transformam o curto prazo em longo etc.

Longa experiência histórica, entretanto, mostra que sem uma regulação que imponha alguma moralidade aos seus operadores, cuja imaginação parece infinita, o "mercado" tem uma enorme propensão à fraude que sempre pune apenas honestos e incautos investidores. Em pelo menos dois episódios –1929 e 2007–, produziram tragédias mundiais.

Quem se interessar pela história verá que, guardadas as proporções, aquelas duas crises (que não se confundem com as crises ínsitas ao sistema capitalista) tiveram a mesma origem e foram apoiadas na mesma ideologia.

Ela dominou o pensamento econômico que se seguiu à Primeira Guerra Mundial e foi posteriormente recuperada pela lenta destruição do controle rooseveltiano que salvou o "capitalismo" na crise de 1929. Meio século depois, o sistema financeiro logrou capturar o poder político nos EUA nas eras Reagan-Bush pai-Clinton-Bush filho-Obama 1-(1981-2012) e, com o apoio "ad hoc" de economistas do "mercado perfeito", destruiu toda regulação que o constrangia e restabeleceu a ideologia do "laissez-faire".

Deu no que deu, outra vez!

Logo, a opinião do tal "mercado" revelada no seu oráculo, a Bolsa de Valores, deve ser levada "cum grano salis".

A Petrobras continua, indisputadamente, no "estado da arte" na sua componente tecnológica e seu trágico desarranjo, que vai ser analisado e punido, se for o caso, pelo Judiciário, é basicamente organizacional e financeiro.

Por que, então, estranhar a escolha de dois excelentes administradores financeiros, os senhores Aldemir Bendini e Ivan de Souza Monteiro, testados com sucesso numa organização gigantesca, eficiente e de alta qualidade profissional, o Banco do Brasil?

Por que, afinal, eles precisam "entender" de petróleo como pediu o tal "mercado", se têm na diretoria técnicos que cresceram na Petrobras e entendem dele?


Aliás, o mercado, entende de petróleo? Então por que ainda está tonto com a queda dos seus preços?

Antonio Delfim Netto, ex-ministro da Fazenda (governos Costa e Silva e Médici), é economista e ex-deputado federal. Professor catedrático na Universidade de São Paulo. Escreve às quartas-feiras.

Fonte: Colunistas da Folha

BIBLIOTECA PAULO FREIRE

Acervo digital disponibiliza toda a obra de Paulo Freire. Estão disponíveis para download gratuito vídeos de aulas, conferências, palestras, entrevistas, artigos e livros do educador

paulo freire obra download
Obra de Paulo Freire está disponível na internet. (Foto: Reprodução)
O Centro de Referência Paulo Freire, dedicado a preservar e divulgar a memória e o legado do educador, disponibiliza vídeos das aulas, conferências, palestras e entrevistas que ele deu em vida. A proposta tem como objetivo aumentar o acesso de pessoas interessadas na vida, obra e legado de Paulo Freire.
Para os interessados em aprofundar os ensinamentos freirianos, o Centro de Referência também disponibiliza artigos e livros que podem ser baixados gratuitamente.

Educação como liberdade

Internacionalmente respeitado, os livros do educador foram traduzidos em mais de 20 línguas. No Brasil, tornou-se um clássico, obrigatório para qualquer estudante de pedagogia ou pesquisador em educação. Detentor de pelo menos 40 títulos honoris causa (concedidos por universidades a pessoas consideradas notáveis), Freire recebeu prêmios como Educação para a Paz (Nações Unidas, 1986) e Educador dos Continentes (Organização dos Estados Americanos, 1992).

FONTE: pragmatismopolitico

Alguns sites e videos de divulgação de pesquisas e ciência, com plataformas online


Alguns sites e videos de divulgação de pesquisas e ciência, com plataformas online:  


Gapminder
Representação gráfica dos dados estadisticos da ONU. Desenvolvida por Hans Rosling um estadistico sueco, com uma visão optimista da humanidade. Tem um video muito bom analisando os mitos do crecimento da pópulação


Neil deGrasse Tyson
Divulgador científico americano e diretor do planetario de Nova York.


Encarregado do remake da serie Cosmos do Carl Sagan em 2014. Este é o primeiro capitulo


Brian Cox
Divulgador científico británico, profesor da universidade de Manchester e investigador do LHC em Ginebra. Muito ativo na BBC. Você pode procurar na internet. Este é um dos programas que ele fez:

Cuando era mais jovem ele estava na banda de rock/pop D.Ream com o single "Things can only get better" ;)


edX
Plataforma de educação online fundada por Harvard e MIT.

segunda-feira, 26 de janeiro de 2015

David Harvey: A crise da urbanização planetária

150124-TarifaZero
Que significa a resistência dos que lutam pela Tarifa Zero, num mundo em que metrópoles parecem cada vez mais marcadas por desigualdade, violência e controle social
Por David Harvey, no blog da Boitempo
Com uma nova temporada de manifestações inaugurada em 2015, o Blog da Boitempo publica este ensaio de David Harvey, escrito originalmente para o catálogo da exibiçãoUneven Growth: Tactical Urbanisms for Expanding Megacities, em 18 de novembro de 2014, logo após sua visita ao Brasil para o ciclo de conferências “A economia política da urbanização“, em que lançou o volume final de seu guia de leitura sobre O capital de Marx, em Brasília, Recife, Fortaleza, Curitiba e São Paulo. Partindo de uma reflexão sobre as Jornadas de  Junho 2013 e seu lugar no contexto das explosões de rua que vêm pipocando ao redor do mundo, Harvey diagnostica o que chama de uma “crise da urbanização planetária” que estaríamos atravessando às cegas e oferece um panorama dos desafios e perspectivas que vêm sendo construídas pelos diversos atores e movimentos sociais emergentes. A tradução é de Artur Renzo, para o Blog da Boitempo.
* * *
Na noite de 20 de junho de 2013, mais de um milhão de pessoas em cerca de 388 cidades brasileiras tomaram as ruas em um enorme movimento de protesto. O maior desses protestos, reunindo mais de 100,000 pessoas, ocorreu no Rio de Janeiro e sofreu considerável violência policial. Por mais de um ano antes disso, manifestações esporádicas vinham acontecendo em diversas cidades brasileiras. Capitaneadas pelo MPL que há muito vinha se mobilizando entre estudantes pelo transporte gratuito, os protestos anteriores foram em larga medida ignorados.
Mas no começo de junho de 2013, o aumento da tarifa sobre o transporte público desencadeou manifestações mais amplas. Muitos outros grupos, incluído black blocs anarquistas, saíram em defesa dos manifestantes do MPL e outros que estavam sofrendo repressão policial. No dia 13 de junho, o movimento já havia se transformado em um protesto generalizado contra a repressão policial, o fracasso dos serviços públicos perante as necessidades sociais, e a qualidade deteriorante da vida urbana. Os enormes gastos de recursos públicos para sediar megaeventos como a Copa do Mundo e as Olimpíadas – em detrimento do interesse público mas muito favoráveis, como amplamente se reconheceu, aos interesses de empreiteiras e incorporadoras corruptas – só aumentaram o descontentamento.
Manifestação_São Paulo_MPL
Os protestos no Brasil vieram menos de um mês depois de milhares de pessoas terem ido às ruas das principais cidades da Turquia. O que aparentemente começara como uma revolta com o projeto de reurbanização que transformaria em shopping center o precioso espaço verde do Parque Taskim Gezi, em Istambul, se alastrou em um protesto mais amplo contra a forma cada vez mais autocrática de governo e a violência da resposta policial. Um descontentamento generalizado sobre o ritmo e o estilo das transformações urbanas (incluindo aí enormes despejos de populações inteiras de terrenos valorizados no centro da cidade) também há muito vinha borbulhando e só jogou mais lenha na fogueira. A má qualidade de vida, para todos menos as classes mais abastadas, em Istambul e em outras cidades turcas era claramente uma questão importante.
O amplo paralelo entre o Brasil e a Turquia levou o articulista Bill Keller a escrever uma coluna de opinião no New York Times intitulada “The Revolt of the Rising Class” [A revolta da classe ascendente]. Os levantes não “nasceram do desespero”, ele escreveu. Tanto o Brasil quanto a Turquia haviam passado por um crescimento econômico notável em um período de crise global generalizada. Tratavam-se dos “mais recentes em uma série de revoltas brotando da classe média – as classes urbanas, educadas e não necessitadas, que são de certa forma as principais beneficiárias dos regimes que agora se põem a rejeitar” e que tinham algo a perder ao tomar as ruas em protesto. “Quando os movimentos atingiram uma massa crítica, eles já reivindicavam algo maior e mais incoeso como dignidade, os pré-requisitos da cidadania, as obrigações do poder.” As revoltas significavam “uma nova alienação, um novo anseio” que tinha de ser encarado.
A bem da verdade, as manifestações no Brasil e na Turquia diferiram dos protestos anti-austeridade e das greves que dominavam nas praças gregas e espanholas. Também diferiram das erupções de violência em Londres, Estocolmo, e nos subúrbios parisienses por parte das populações marginalizadas e imigrantes. E todos esses se mostraram diferentes dos movimentos “Occupy” em muitas cidades ocidentais e dos levantes pró-democracia que ecoaram de Túnis, Egito e Syria passando pela Bósnia e a Ucrânia.
Entretanto, há também pontos comuns que atravessam essas diferenças. Todas foram, por exemplo, centradas no espaço urbano, até certo ponto levemente supraclassistas, e ainda (ao menos inicialmente) inter-étnicas (embora isso tenha se desfeito na medida em que forças internas se deslocavam para dividir e controlar, e poderes externos exploravam os descontentamentos por vantagens geopolíticas, como na Síria e na Ucrânia). Desafeição e alienação urbana foram bastante proeminentes dentre os desencadeadores, bem como a indignação universal com a crescente desigualdade social, com a elevação nos custos de vida, e com repressões policiais gratuitamente violentas.
Nada disso deveria surpreender. A urbanização tem cada vez mais constituído um sítio primário de infindável acumulação de capital que administra suas próprias formas de barbárie e violência sobre populações inteiras em nome do lucro. A urbanização se tornou o centro de atividades econômicas avassaladores em escala planetária nunca antes vistas na história da humanidade. O Financial Times informa, por exemplo, que o “investimento imobiliário é o mais importante motor na economia chinesa”, que por sua vez tem sido o principal motor da economia global ao longo da crise mundial que começou em 2007. “A construção, venda e mobília de apartamentos representou 23% do PIB chinês em 2013.”1 Se somarmos os gastos com infraestruturas físicas de grande porte (estradas, ferrovias e obras públicas de todo tipo) então quase metade da economia chinesa está voltada para urbanização. A China consumiu mais de metade do aço e do cimento globais ao longo da última década. “Em apenas dois anos, de 2011 a 2012, a China produziu mais cimento que os Estados Unidos em todo o século XX”.2
Embora extremas, essas tendências não se encerram no território chinês. Concreto vem sendo despejado por toda parte em um ritmo sem precedentes sobre a superfície terrestre. Estamos, em suma, em meio a uma enorme crise – ecológica, social e política – de urbanização planetária sem, ao que parece, nos dar conta ou mesmo marcando-a.
Nada desse novo desenvolvimento poderia ter ocorrido sem despejos e despossessões massivas, onda após onda de destruição criativa que tem cobrado não só um preço físico mas também destruído solidariedades sociais, varrido qualquer pretensões de governança urbana democrática, e tem cada vez mais recorrido ao terror e à vigilância policial militarizada  como seu modo primário de regulação social. A inquietação ligada à despossessão na China é difícil de medir, mas é certamente muito difundida. O sociólogo Cihan Tugal escreveu: “Bolhas imobiliárias, preços altíssimos de habitação, e a privatização-alienação generalizada de bens urbanos comuns constituem o chão comum de protestos em lugares tão diversos como Estados Unidos, Egito, Espanha, Turquia, Brasil, Israel e Grécia”.3 O crescente custo de vida – particularmente de alimentação, transporte e habitação – tem tornado a vida cotidiana cada vez mais difícil para populações urbanas. Revoltas em torno de alimentação em cidades do norte da África eram frequentes e difundidas mesmo antes dos levantes na Tunísia e na Praça Tahrir.
Esse boom de urbanização não tem tido muito a ver com atender às necessidades da população. Trata-se de uma estratégia para absorver capital excedente, sustentar taxas de lucro, e maximizar o retorno sobre valores de troca independentemente de quais forem as demandas por valores de uso. As consequências tem frequentemente se mostrado extremamente irracionais. Enquanto há uma escassez crônica de moradias financeiramente acessíveis em quase toda grande cidade, suas skylines são emporcalhadas com condomínios vazios para os ultra-ricos, cujos principais interesses são especular valores imobiliários ao invés de promover o bem-estar.
FOTO: Mídia Ninja
Em Nova York, onde metade da população tem de viver com menos de $30,000 dólares ao ano (em contraste com o 1%, que tinha uma renda anual média de $3.57 milhões de acordo com os relatórios tributários referentes a 2012), há uma crise de moradias financeiramente acessíveis porque em lugar algum é possível encontrar um apartamento de dois cômodos pelos $1,500 dólares ao mês que uma família de quatro deveria dedicar a habitação (dada a renda de $30,000). Em quase todas as principais cidades dos EUA, a porcentagem das despesas em habitação são muito superiores aos 30% da renda considerados razoáveis.4
O mesmo vale para Londres, onde há ruas inteiras de mansões desocupadas, mantidas por motivos puramente especulativos. Enquanto isso, o governo britânico busca aumentar a oferta de moradias acessíveis implementando uma taxa de sub-ocupação – que ficou conhecida como a bedroom tax –  sobre habitação social para o setor mais vulnerável da população, causando, por exemplo, o despejo de uma viúva morando sozinha em uma Council House de dois quartos. A taxa de sub-ocupação foi claramente implementada na classe errada, mas os governos esses dias parecem singularmente dedicados a bajular os mais abastados às custas dos pobres e desavantajados. A mesma irracionalidade de cômodos vazios em meio a carência de moradias a preços acessíveis pode ser encontrada no Brasil, na Turquia, em Dubai e no Chile, bem como em todas as cidades globais de altas finanças como Londres e Nova York. Enquanto isso, austeridades orçamentárias e relutância em taxar os mais ricos dado o poder esmagador de uma agora triunfante oligarquia significa um declínio de serviços públicos para as massas e ainda mais acumulação de riqueza para poucos.
É em condições desse tipo que a propensão a revolta política começa a inchar. Alienação universal de uma vida diária tolhante na cidade se evidencia por toda parte. Mas igualmente salientam-se as inúmeras tentativas por parte de indivíduos, grupos sociais, e movimentos políticos de encontrar formas de construir uma vida decente em um ambiente decente de vida. O tema de que deve haver alguma alternativa assume diversas formas e produz muitas quasi-soluções em aparentemente infinitas guisas.
É neste contexto que grupos de pensadores e ativistas estão explorando alternativas, por vezes em escalas pequenas mas em outras instâncias, no despertar de revoltas urbanas, para estimular a busca por melhores formas de vida urbana.5 O ethos faça-você-mesmo de muitos grupos sociais marginalizados da dinâmica prevalecente de acumulação de capital cria possibilidades de alianças entre pensadores e técnicos urbanos com movimentos sociais nascentes buscando uma vida boa ou, ao menos, melhor. Em nações andinas, o ideal do buen vivir está inscrito em constituições nacionais mesmo que na prática acabe entrando em conflito com políticas neoliberalizantes.6
Há possibilidades e potencialidade populares emergindo da crise da urbanização planetária e seus múltiplos mal-estares. Isso ocorre mesmo em face da aparentemente implacável força da acumulação infindável de capital, crescendo a uma taxa exponencial insustentável e apesar do poder que atravessa classes sociais sendo manejado por uma oligarquia global cada vez mais escancarada e intransigente.7
Uma escavadeira, posteriormente apelidada de de POMA, tomada por manifestantes e usada contra os veículos TOMA, carros-forte da polícia turca, em Istambul.
Então o que é que pode emergir das revoltas populares? Há signos e sinais confusos mas também algumas pistas importantes. No Parque Taskim Gezi, por exemplo, não era apenas o parque que importava. A “classe ascendente” construiu solidariedades sociais instantâneas, uma economia de compartilhamento e provisão social coletiva (alimentação, saúde, vestimentas), de zelar pelos outros (particularmente os feridos e amedrontados). Os participantes mostraram evidente prazer e disposição em debater interesses comuns através de assembleias democráticas, com discussões acaloradas que se estendiam noite adentro, e sobretudo encontraram um mundo possível de humor coletivo e liberação cultural que anteriormente parecia interditado. Eles abriram espaços alternativos, construíram um commons a partir de espaços públicos, e liberaram o poder do espaço a um propósito social e ambiental alternativo. Eles encontraram uns aos outros bem como o parque;8 eles identificaram uma ordem social nascente à espera.
Essas indicações nos permitem vislumbrar uma futura alternativa. O espírito de muitos (embora não todos) desses protestos e o espírito no interior dos movimentos pró-democracia e “Occupy” é de ir além da “nova alienação” que Keller percebe como sendo tão importante para construir uma experiência urbana menos alienante. Resistência visceral à proposta de despejar concreto sobre o Parque Taskim Gezi para construir uma imitação de um quartel otomano que funcionaria como mais um shopping center é nesse sentido emblemático do que é a crise da urbanização planetária. Despejar mais e mais concreto em uma busca sem sentido por crescimento infindável obviamente não é resposta alguma para nossos atuais males.
Aula pública convocada pelo MPL-São Paulo, com o economista Lucio Gregori, autor do projeto para o Passe Livre. Vale do Anhangabaú, 5 de janeiro de 2015.
Mas a “classe ascendente” também não representa a totalidade da população. Na Turquia, a massa das classes trabalhadoras islâmicas não se juntaram à revolta. Eles já possuíam suas próprias solidariedades culturais (frequentemente anti-modernistas) e relações sociais endurecidas (particularmente no que diz respeito à questão de gênero). Eles não se atraíram pela retórica emancipatória do movimento de protesto porque aquele movimento não abordou efetivamente sua condição de imensa privação material. Eles gostaram da combinação de shopping centers e mesquitas que o partido dominante, o AKP (Partido da Justiça e Desenvolvimento), estava construindo e não se importavam com a evidente corrupção em torno da explosão na construção civil contanto que representasse uma fonte de emprego. O movimento de protesto do Parque Taksim Gezi não era, como as eleições municipais subsequentes mostraram, supraclassista o suficiente para durar.
Não há resposta única aos nossos predicamentos. A experiência urbana sob o capitalismo está se tornando bárbara, bem como repressiva. Se as raízes dessa experiência alienante estão na infindável acumulação de capital, então essas raízes têm de ser definitivamente rompidas. As vidas e o bem estar têm de ser re-enraizados em outros modos de produzir e consumir, enquanto novas formas de socalidade precisam ser construídos. O ethos neoliberal de individualismo isolado e responsabilidade pessoal, ao invés de social tem de ser superado. Retomar as ruas em atos de protesto coletivo pode ser um começo. Mas é somente um começo e não pode ser um fim em si mesmo. Maximizar o buen vivir para todos na cidade ao invés do PIB, para o benefício de poucos é uma ótima ideia. Ela precisa ser fundamentada em práticas urbanas em toda parte.
f
Notas
1. Jamil Anderlini, “Property Sector Slowdown Adds to China Fears,” Financial Times, May 13, 2014
2. Keith Bradsher, “China’s Sizzling Real Estate Market Cools,” New York Times, May 13, 2014, B1.
3. Cihan Tugal, “Resistance Everywhere: The Gezi Revolt in Global Perspective,” New Perspectives on Turkey 49(2013): 157–72.
4. Shaila Dewan, “In Many Cities Rent is Rising Out of Reach of Middle Class,” New York Times, April 14, 2014, A1.
5. Ver o capítulo 17 de meu livro Dezessete contradições e o fim do capitalismo (Boitempo, no prelo).
6. Republic of Ecuador National Planning Council, National Plan for Good Living: Building a Plurinational and Intercultural State (Quito: Senplades, 2010).
7. As tendências para uma maior desigualdade social foram recentemente documentadas de forma espetacular emLe capital ao xxi siécle, de Thomas Piketty.
8. Arzu Ozturkmen, “The  Park, the Penguin and the Gas: Experience and Performance in Progress of Gezi Events”, Mimeo (Bogazici University, Istanbul).

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