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terça-feira, 17 de março de 2015

LIVRO: INSTITUTOS FEDERAIS: UMA REVOLUÇÃO NA EDUCAÇÃO PROFISSIONAL E TECNOLÓGICA ELIEZER PACHECO



O governo federal tem implementado, na área educacional, políticas que abrem oportunidades para milhões de jovens e adultos da classe trabalhadora. Como agentes políticos comprometidos com um projeto democrático e popular, precisamos ampliar a abrangência de nossas ações educativas. A educação deve estar vinculada às estratégias de um projeto que busque não apenas a inclusão nessa sociedade desigual, mas também a construção de uma nova sociedade fundada na igualdade política, econômica e social. Nosso objetivo central não é formar um profissional para o mercado, mas um cidadão para o mundo do trabalho. Os Institutos Federais de Educação, Ciência e Tecnologia são caracterizados pela ousadia e inovação necessárias a uma política e um conceito que pretendem antecipar aqui e agora as bases da escola do futuro, comprometida com uma sociedade radicalmente democrática e socialmente justa. 

Impeachment é pouco, Por Vladimir Safatle

Não resisti, tive que compartilhar!!! Disponível em: Colunistas da Folha
Fonte: Folha

Fonte: UOL

Você na rua, de novo. Que interessante. Fazia tempo que não aparecia com toda a sua família. Se me lembro bem, a última vez foi em 1964, naquela "Marcha da família, com Deus, pela liberdade". É engraçado, mas não sabia que você tinha guardado até mesmo os cartazes daquela época: "Vai para Cuba", "Pela intervenção militar", "Pelo fim do comunismo". Acho que você deveria ao menos ter tentado modernizar um pouco e inventar algumas frases novas. Sei lá, algo do tipo: "Pela privatização do ar", "Menos leis trabalhistas para a empresa do meu pai".

Vi que seus amigos falaram que sua manifestação foi uma grande "festa da democracia", muito ordeira e sem polícia jogando bomba de gás lacrimogêneo. E eu que achava que festas da democracia normalmente não tinham cartazes pedindo golpe militar, ou seja, regimes que torturam, assassinam opositores, censuram e praticam terrorismo de Estado. 

Houve um tempo em que as pessoas acreditavam que lugar de gente que sai pedindo golpe militar não é na rua recebendo confete da imprensa, mas na cadeia por incitação ao crime. Mas é verdade que os tempos são outros.

Por sinal, eu queria aproveitar e parabenizar o pessoal que cuida da sua assessoria de imprensa. Realmente, trabalho profissional. Nunca vi uma manifestação tão anunciada com antecedência, um acontecimento tão preparado. Uma verdadeira notícia antes do fato. Depois de todo este trabalho, não tinha como dar errado.

Agora, se não se importar, tenho uma pequena sugestão. Você diz que sua manifestação é apartidária e contra a corrupção. Daí os pedidos de impeachment contra Dilma. Mas em uma manifestação com tanta gente contra a corrupção, fiquei procurando um cartazete sobre, por exemplo, a corrupção no metrô de São Paulo, com seus processos milionários correndo em tribunais europeus, ou uma mera citação aos partidos de oposição, todos eles envolvidos até a medula nos escândalos atuais, do mensalão à Petrobras, um "Fora, Alckmin", grande timoneiro de nosso "estresse hídrico", um "Fora,
Eduardo Cunha" ou "Fora, Renan", pessoas da mais alta reputação. Nada.

Se você não colocar ao menos um cartaz, vai dar na cara de que seu "apartidarismo" é muito farsesco, que esta história de impeachment é o velho golpe de tirar o sujeito que está na frente para deixar os operadores que estão nos bastidores intactos fazendo os negócios de sempre. Impeachment é pouco, é cortina de fumaça para um país que precisa da refundação radical de sua República. Mas isto eu sei que você nunca quis. Vai que o povo resolve governar por conta própria.

sexta-feira, 13 de março de 2015

Intervenção Pedagógica na Licenciatura em Ciências Biológicas

Hoje tive oportunidade de vivenciar uma experiência pedagógica no Curso de Licenciatura em Ciências Biológicas do Câmpus Londrina do Instituto Federal do Paraná. A intervenção contou com a presença dos Professores Fernanda e Rogério e o objetivo da mesma foi estudar o impacto do processo de industrialização para o meio ambiente. Fui apresentado à turma e externalizei minha satisfação e emoção em ver um projeto como este, de um processo pedagógico que rompe com aulas tradicionais expositivas e processos pedagógicos já consolidados. Então, falei da política pública de um governo popular que possibilitou uma escola técnica para os trabalhadores e seus filhos, que oportunizou a abertura de cursos para a inclusão social, bem como da política da gestão atual, de viabilizar 80% das vagas para cotas sociais. Na sequência, a Luiza, ligada aos movimentos estudantis, fez uma explanação sobre a importância de constituição de um Centro Acadêmico do curso e de um Diretório Central dos Estudantes para o Câmpus Londrina.

Após isto, os estudantes definiram o produto das intervenções a partir do cumprimento dos objetivos, que, democraticamente, elegeram elaborar um jornal virtual para disponibilizar os artigos e produtos finais do referido objetivo.

Por fim, a intervenção do dia teve como base o documentário intitulado "O Mundo Segundo a Monsanto", de Marie-Monique Robin, que denuncia os problemas oriundos dos transgênicos, as implicações à saúde e ao meio ambiente, bem como os fatores de corporativismo e complacência do poder público, em permitir que exista uma "porta giratória" entre a empresa e os representantes do executivo e legislativo, cujos membros faziam alternância entre atuações políticas e atuações na corporação, o que viabilizou seus interesses e a aprovação comercial do produto. Tal exposição permitiu discussões e reflexões entre os estudantes e mediadores. Mais informações sobre a Monsanto podem ser acessadas no documentário abaixo:


Fotos de algum dos momentos da intervenção:







quinta-feira, 12 de março de 2015

Baixe e Use - Projeto da Câmara dos Deputados

Catálogo de vídeos em alta resolução




O Baixe e Use é um catálogo com mais de 280 produções originais da TV Câmara disponíveis para download gratuito. São documentários, reportagens e interprogramas informativos que abordam dezenas de temas diferentes, com o objetivo de promover a educação, o debate e o exercício da cidadania. Os vídeos foram codificados com as tecnologias mais recentes, o que garante ótima resolução de vídeo sem comprometer o tempo de download.
Você escolhe como deseja usar o material: assistir pela internet, gravar, guardar, postar em blogs ou sites, ilustrar trabalhos e seminários, exibir em grandes audiências. Não é necessário fazer cadastro nem inscrição. Todos os vídeos do Baixe e Use são livres de pagamento pela utilização, mas o download está automaticamente condicionado ao conhecimento e à aceitação dos termos de uso.
O Baixe e Use foi um dos três finalistas do Prêmio Converge de Inovação Digital 2010.
As produções estão divididas por eixo temático e categoria de programas.

Eixos Temáticos

terça-feira, 10 de março de 2015

Novas Práticas Pedagógicas no IFPR Câmpus Londrina

Hoje tive a oportunidade de vivenciar as experiências dos professores e estudantes no novo curso de Biotecnologia Integrado ao Ensino Médio implantado no Câmpus Londrina do Instituto Federal do Paraná. O Curso Técnico em Biotecnologia Integrado ao Ensino Médio tem duração de 4 anos e é desenvolvido com base numa proposta pedagógica conhecida como Pedagogia por Projetos, na qual o conhecimento é construído por meio de metas preestabelecidas entre alunos e professores em perspectiva multirreferencial e transdisciplinar. O curso oferta os conhecimentos formais de nível médio, além de capacitar os estudantes como Técnicos em Biotecnologia, preparando-os para o mundo do trabalho. 

A experiência de hoje contou com os professores mediadores Fabiano, Walquiria e Flávia, que, dentro do projeto escolhido pelos estudantes, estão trabalhando com objetivos específicos de Biomas. Detectei que o nível de aprofundamento dos estudantes é maior, uma vez que, em todas as dinâmicas, é realizada uma intervenção inicial pelos mediadores, para conhecimento do 'estado da arte' do tema escolhido que ajudará no projeto; na sequencia, os estudantes visitaram diversos ambientes de pesquisa, para agregarem materiais que respondam às problemáticas originadas na intervenção. No final da dinâmica, houve a socialização do conhecimento, possibilitando que todos os conteúdos fossem trabalhados por todos os estudantes;tal prática estimula e instiga-os para novos desafios, como a capacidade de síntese, a capacidade de repassar o conhecimento, as habilidades de apresentação em público e em grupo e, o mais importante,a viabilização do processo de aprender a aprender. A equipe diretiva, pedagógica e de professores buscam estratégias de rompimento com a pedagogia castradora tradicional, e, com isso, sincronizam suas práticas às dinâmicas do cotidiano, gerando autonomia e responsabilidade aos nossos estudantes. 

Mais informações estão disponíveis no site do IFPR




Ainda na prática, foi mostrado um pequeno vídeo sobre os biomas, que pode ser acessado abaixo: 





segunda-feira, 9 de março de 2015

Entrevista Edgar Morin: "É preciso ensinar a compreensão humana"

por Equipe Fronteiras/Milênio
Disponível em: Fronteiras.com 





Nos acostumamos a acreditar que pensamento e prática são compartimentos distintos da vida. Quem pensa o mundo não faz o mundo e vice-versa. Mas, houve um tempo em que os sábios, eventualmente chamados de cientistas ou artistas, circulavam por diversos campos da cultura. Matemática, física, arquitetura, pintura, escultura eram matéria-prima do pensamento e da ação. A revolução industrial veio derrubar a ideia do saber renascentista e, desde o século 19, a especialização foi ganhando força.
Mas, sempre haverá quem nos lembre que a vida é produto de um contexto, de um acúmulo de vivências e ideias. Pense num filósofo que pegou em armas contra o nazismo para depois empunhar as ferramentas da retórica contra o stalinismo, que reconhece a importância dos saberes dos povos originais sem abrir mão de pensar e repensar a educação formal.
Com mais de 90 anos, o francês Edgar Morin, nascido e criado Edgar Nahoum no início do século 20, é um dos mais respeitados pensadores do nosso tempo. Com uma gigantesca produção literária, pedagógica e filosófica. Em tempos de radicalismos, Morin é herdeiro do melhor do humanismo francês. Em entrevista ao programa Milênio, Edgar Morin fala sobre filosofia, religiões e o significado da educação na contemporaneidade. Leia abaixo:

Gostaria de começar com uma questão generalista. Sociólogo, antropólogo, filósofo, professor, escritor, e até, às vezes, jornalista. Qual a melhor definição de Edgar Morin e por quê?
Edgar Morin: 
A melhor definição seria não ter definição.  De se bastar. A palavra “filósofo” talvez me conviesse bem, mas hoje a filosofia, no geral, se fechou em si mesma e a minha é uma filosofia que observa o mundo, os acontecimentos, etc. Sou muito marginal, quer dizer, sou marginal em todas essas áreas. Então, sou aquele que querem que eu seja.

Seria mais correto falar em um pensador do estilo renascentista, alguém que mistura um pouco essas histórias todas?
Edgar Morin: 
Não exatamente que mistura, mas que tenta fazer a ligação, que tenta ter uma cultura feita de conhecimentos que hoje estão dispersos. Mas, é verdade que o Renascentismo foi admirável pelos homens que tinham um conhecimento, não digo enciclopédico, mas aberto a várias áreas. Se quiserem, acho que as perguntas fundamentais de cada um a si mesmo, “quem somos nós, para onde vamos e de onde viemos?”, são questões fundamentais, precisamos respondê-las e não afastá-las. 
A tragédia do nosso sistema de conhecimento atual é que ele compartimenta tanto os conhecimentos que a gente não consegue se fazer essas perguntas. Se perguntarmos “O que é o ser humano?”, não teremos respostas, porque as diferentes respostas estão dispersas. E, no fundo, é isso que chamo de pensamento complexo, um pensamento que reúne conhecimentos separados.

E esse pensamento complexo do qual o senhor fala estaria em oposição a um pensamento simples. Como se dá esse duelo hoje, num setor que o senhor conhece bem, o ensino?
Edgar Morin: 
O que chamo de desafio da complexidade é que estamos em um mundo onde encontramos problemas tão difíceis e separados, e uni-los. Como fazer isso? Eu fiz um trabalho ao longo de muitos anos para, de certa forma, elaborar um método que possibilite a união desses saberes, porque não podemos simplesmente sobrepor, é preciso articulá-los.
Acredito que, para uma melhor compreensão da realidade, para entender quem somos, que você é um ser complexo, que eu sou um ser complexo, não podemos estar reduzidos a um único aspecto da personalidade, para saber que a sociedade é complexa, para entender a globalização. Acredito que é sim necessário um pensamento assim, senão temos um pensamento mutilado, o que é muito grave, porque um pensamento mutilado leva a decisões erradas ou ilusórias.

E como traduzir isso para os alunos, para as novas gerações, por meio do ensino? Como é possível encarar essa tarefa tão difícil para os educadores, para aqueles que estudam a educação e querem passar adiante esse pensamento mais complexo, com uma visão um pouco mais ampla do mundo do que aquela homogeneizada, simplista, com certezas bastante frágeis?
Edgar Morin: 
Eu proponho, a introdução, no ensino, de temas fundamentais que ainda não existem. Quer dizer, proponho introduzir o tema do conhecimento, pois damos conhecimento sem nunca saber o que é o conhecimento. Mas, como todo conhecimento é uma tradução seguida de uma reconstrução, sempre existe o risco do erro, o risco de alucinações, sempre.
Eu proponho o método de incluir esses temas, de incluir o tema da compreensão humana. É preciso ensinar a compreensão humana, porque é um mal do qual todos sofrem em graus diferentes. Começa na família, onde filhos não são compreendidos pelos pais e os pais não entendem seus filhos. Pode continuar na escola, com os professores e os colegas. Continua na vida do trabalho, no amor e acho que temos que ensinar também a enfrentar as incertezas. Porque em todo destino humano há uma incerteza desde o nascimento. A única certeza é a morte e não sabemos quando. Mas, é claro que estamos em meio, não apenas das incertezas que chamaria de normais, de saúde, casamento, trabalho, mas também uma incerteza histórica impressionante.
Antes, a gente achava que existia um progresso certo e agora o futuro é uma angústia. Por isso, suportar, enfrentar a incerteza é não naufragar na angústia, saber que é preciso, de certa forma, participar com o outro, de algo em comum, porque a única reposta aos que têm a angústia de morrer é o amor e a vida em comum.

Isso nos traz a um dos muitos caminhos que temos para nos conhecer e conhecer o outro, que é a participação política. E o senhor, desde muito cedo, teve uma participação política muito importante. Na Resistência e, depois, com suas relações no Partido Comunista. Mas, muito cedo também, o senhor aprendeu a fazer essa autocrítica e não hesitou em criticar duramente o Partido Comunista e a ascensão da URSS Stalinista, depois da China maoísta. Mais recentemente, a globalização. Politicamente, hoje, qual a luta que o senhor considera que vale a pena lutar? Sabemos que o mundo vive uma crise profunda de representação nas democracias, nos partidos, nos sindicatos. Como fazer essa luta política?
Edgar Morin: 
Antes de mais nada, é preciso entender bem que estamos ameaçados, cada vez mais, por duas barbáries. A primeira barbárie a gente conhece, vem desde os primórdios da história, que é a crueldade, a dominação, a subserviência, a tortura, tudo isso. A segunda barbárie, ao contrário, é uma barbárie fria e gelada, a do cálculo econômico. Porque quando existe um pensamento fundado exclusivamente em contas, não se vê mais os seres humanos. O que se vê são estatísticas, produtos burros. No fundo, o cálculo, que é útil, mas como instrumento, se torna um meio de conhecimento, mas de falso conhecimento, que mascara a realidade humana.
No fundo, assim que entra o cálculo, os humanos são tratados como objetos. E hoje, com o domínio justamente do poder e do dinheiro, com o domínio do mundo burocrático, tudo isso, é o reino da barbárie gelada. Se preferir, é preciso repensar a política e nós estamos na pré-história desse momento. É preciso saber se as forças negativas, a corrente negativa vai ser mais forte do que as forças positivas que tentam se levantar hoje no mundo e são ainda muito dispersas.

Como fazer com que todas essas ferramentas, que existem e foram desenvolvidas nas últimas décadas, possam ser utilizadas de uma forma, digamos, mais positiva?
Edgar Morin: 
Antes de mais nada, é verdade que informação não é conhecimento. Conhecimento é a organização das informações. Então, estamos imersos em informações e como elas se sucedem dia a dia, de certa forma, não temos como ter consciência disso. De outra parte, os conhecimentos, como eu disse, estão dispersos. É preciso uni-los, mas falta esse pensamento complexo. Dito isso, quando pensamos sobre a internet, a internet virou uma força incrível, eu diria que em todas as direções, tanto para o lado negativo quando para o positivo.
O que há de extraordinário na internet e em todos esses meios que você citou é que, hoje, um Estado pode controlar um indivíduo em todos os seus gestos e atos, mesmo quando ele está na rua lendo um jornal. Podemos ser controlados. Mas, ao mesmo tempo, através da internet, um ou dois indivíduos razoavelmente talentosos em matemática podem decifrar os segredos do Pentágono, segredos diplomáticos dos mais importantes do Estado mais forte do mundo. 

O senhor acha que neste mundo, com tantas coisas que regridem, um país como o Brasil que o senhor conhece tanto tem algo a ensinar aos outros notadamente quando se vê essa sociedade mestiça, essa mistura que existe de verdade. Mesmo que tenhamos os nossos problemas com o racismo, nossos problemas de exclusão e tudo isso. Mas, o senhor acha que essa sociedade brasileira, com todos esses problemas, tem algo a ensinar?
Edgar Morin:
 Apesar dos limites, digamos, do caráter de segregação social, é uma sociedade indiscutivelmente mestiça, que conseguiu integrar contribuições vindas da África. Nunca em outro país a contribuição africana foi tão intensamente integrada nos costumes, nem que seja na gastronomia, nas danças, nos cantos. É um país muito interessante também onde, no Sul, que tem muitos imigrantes alemães e italianos e o Nordeste, que é muito diferente com sua população, os caboclos... Apesar dessa grande diversidade, é um país que nunca quis se separar. Vejam a Itália, a Itália do Norte quer se separar da do Sul, veja a Inglaterra, a Escócia quer deixar o Reino Unido.
No Brasil, mesmo com toda essa extraordinária heterogeneidade, existe uma cultura comum que mantém a unidade. Ou seja, pra mim, o Brasil é um grande estimulante. Um estimulante intelectual, mas também humano, pois tem um calor humano, um sentimento de familiaridade, que também perdemos na França e encontramos, muito vivo, no Brasil.

Eu já o vi e li dizendo que o monoteísmo era o flagelo da humanidade. Queria saber se o senhor mantém essa posição hoje, frente ao que vemos no Oriente Médio e nas lutas nacionalistas que misturam a religião à importância nacional.
Edgar Morin: 
A fórmula é parcialmente verdadeira. Por quê? Porque há outro aspecto muito presente no Cristianismo, sobretudo no Cristianismo de caráter evangélico, e também no Islã, onde também há como princípio um Deus magnânimo e misericordioso. Existe um universalismo, porque o Cristianismo e o Islã se dirigem a todos os homens, a todos os seres humanos, não importa a raça. Quando vemos a história do Cristianismo, há uma renovação dessa fonte de fraternidade e de evangelismo. Mas, quando olhamos a mesma história do Cristianismo, também vemos guerras religiosas, a Inquisição, as perseguições, as fogueiras, as cruzadas e tudo isso. E quando olhamos para a história do Islã também.
Dito isso, o que é o monoteísmo? É o que vê a unidade no mundo. O que é o politeísmo? É o que vê a diversidade no mundo, que vê, como os antigos gregos, mas também no Candomblé, vocês têm Iemanjá, deusa das águas, têm os outros, dá pra dizer que são complementares. Uns veem a diversidade e outros a unidade. Mas, o politeísmo sempre foi mais tolerante do que o monoteísmo, sempre foi menos dogmático. E, se hoje, o Hinduísmo fica agressivo contra o Islã é que ele próprio vive uma luta entre duas religiões, mas, em princípio, as religiões politeístas são mais... Mas, como estou fora dessas religiões, apenas constato. Acredito que a virtude dos politeístas seja a de respeitar também a natureza. Quando se tem a Pacha Mama, da tradição andina, temos o amor da mãe terra. O Cristianismo separou, como aliás o Islã, os dois tendo a mesma fonte, a Bíblia. Dizem que Deus criou o homem à sua imagem, diferente da dos animais. Paulo disse que os humanos podem ressuscitar, mas os animais não.
Criamos a dissociação com a natureza, acentuada pela civilização ocidental, dizendo que, através da ciência e da tecnologia podemos dominar e controlar a natureza. Mas, é preciso reencontrar o sentido da natureza de uma forma não mais politeísta, mas humana, quer dizer, sentir essa vida, esse sentimento que expressava Spinoza, que a criatividade e a divindade estão na natureza.

Qual seria, então, na sua opinião, o maior desafio do ensino escolar hoje no mundo? Fazer esse equilíbrio sociedade tecnológica e humana, o equilíbrio entre o dinheiro e o saber, entre o humanismo e a individualidade?
Edgar Morin: 
Antes de mais nada, é não se deixar contaminar pela lógica da empresa. Uma universidade não é uma empresa, é como um hospital, não é uma empresa. A lógica não é a do lucro, não é a dos benefícios, não é a do equilíbrio orçamentário, é outra lógica. Depois, não obedecer ao dogma da avaliação. Avaliamos e avaliamos, quando, na realidade, a avaliação também é um jeito de calcular que ignora a complexidade das realidades humanas.
O objetivo do ensino deve ser ensinar a viver. Viver não é só se adaptar ao mundo moderno. Viver quer dizer como, efetivamente, não somente tratar as grandes questões de que falamos, mas como viver na nossa civilização, como viver na sociedade de consumo. Produzimos coisas descartáveis em vez de objetos reparáveis, que possam ser consertados. Então há toda uma lógica e é preciso dar, no ensino, os meios àqueles que vão se tornar adultos, de poder escolher alimentos, consumo, não usar o que não é bom e favorecer o que tem qualidade e o que é artesanal.
Acho que é preciso ensinar não só a utilizar a internet, mas a conhecer o mundo da internet. É preciso ensinar a saber como é selecionada a informação na mídia, pois a informação sempre  passa por uma seleção – como e por quê? É preciso ensinar, há todo um ensinamento, para nossa civilização, que não está pronto. Tem isso e ainda o ensino dos problemas fundamentais e globais. Essa é a reforma fundamental que precisa ser feita.

Para terminar, professor, o que é que alimenta suas esperanças num mundo melhor?
Edgar Morin: 
A esperança é a ideia que o futuro já que é incerto e já que é desconhecido, pode justamente ser melhor e, no fundo, meu sentimento profundo é que eu sou um pedacinho temporário, numa gigantesca aventura, que é a da humanidade, que começou, talvez, há sete milhões de anos, quando um primata virou bípede. Que continuou e seguiu pela pré-história, a história, o fim dos impérios, os acontecimentos, as guerras mundiais. Uma aventura absolutamente incrível. E como o passado é incrível, eu sei que o futuro também será incrível.
Mas, sinto que faço parte dessa totalidade, querendo ou não. Isso também me leva para frente. Não renuncio. Sem querer, sou animado por esse sentimento de estar na aventura e quero também dar, mesmo que seja pequena, minha contribuição a isso. É isso que também me encoraja. Não tenho só esperança, tampouco desespero. Mesmo que saiba que a vida é, ao mesmo tempo, magnífica e trágica.
Uma das minhas máximas favoritas é: “o que não se regenera, degenera.” Nada está estabelecido para sempre. Se você tem a democracia, não é para sempre, pode degenerar. Se acabou com a tortura, não é para sempre, pode voltar. Quer dizer, é preciso estar com as forças da regeneração e sentir a necessidade dessas forças de regeneração me tonifica, me faz bem e espero fazer o bem também.

- Assista ao programa na íntegra no Globosat Play (para assinantes)
- Assista a Edgar Morin no Fronteiras do Pensamento | Os limites do conhecimento na globalização

O panelaço da barriga cheia e do ódio

Por Juca Kfouri, em seu Blog

Nós, brasileiros, somos capazes de sonegar meio trilhão de reais de Imposto de Renda só no ano passado.
Como somos capazes de vender e comprar DVDs piratas, cuspir no chão, desrespeitar o sinal vermelho, andar pelo acostamento e, ainda por cima, votar no Collor, no Maluf, no Newtão Cardoso, na Roseana, no Marconi Perillo ou no Palocci.
O panelaço nas varandas gourmet de ontem não foi contra a corrupção.
Foi contra o incômodo que a elite branca sente ao disputar espaço com esta gente diferenciada que anda frequentando  aeroportos, congestionando o trânsito e disputando vaga na universidade.
Elite branca que não se assume como tal, embora seja elite e branca.
Como eu sou.
Elite branca, termo criado pelo conservador Cláudio Lembo, que dela faz parte, não nega, mas enxerga.
Como Luís Carlos Bresser Pereira, fundador do PSDB e ex-ministro de FHC, que disse:
“Um fenômeno novo na realidade brasileira é o ódio político, o espírito golpista dos ricos contra os pobres. 
O pacto nacional popular articulado pelo PT desmoronou no governo Dilma e a burguesia voltou a se unificar. 
Surgiu um fenômeno nunca visto antes no Brasil, um ódio coletivo da classe alta, dos ricos, a um partido e a um presidente. 
Não é preocupação ou medo. É ódio. 
Decorre do fato de se ter, pela primeira vez, um governo de centro-esquerda que se conservou de esquerda, que fez compromissos, mas não se entregou. 
Continuou defendendo os pobres contra os ricos. 
O governo revelou uma preferência forte e clara pelos trabalhadores e pelos pobres. 
Nos dois últimos anos da Dilma, a luta de classes voltou com força. 
Não por parte dos trabalhadores, mas por parte da burguesia insatisfeita. 
Quando os liberais e os ricos perderam a eleição não aceitaram isso e, antidemocraticamente, continuaram de armas em punho. 
E de repente, voltávamos ao udenismo e ao golpismo.”
Nada diferente do que pensa o empresário também tucano Ricardo Semler, que ri quando lhe dizem que os escândalos do mensalão e da Petrobras demonstram que jamais se roubou tanto no país. 
“Santa hipocrisia”, disse ele. “Já se roubou muito mais, apenas não era publicado, não ia parar nas redes sociais”.
Sejamos francos: tão legítimo como protestar contra o governo é a falta de senso do ridículo de quem bate panelas de barriga cheia, mesmo sob o risco de riscar as de teflon, como bem observou o jornalista Leonardo Sakamoto.
Ou a falta de educação, ao chamar uma mulher de “vaca” em quaisquer dias do ano ou no Dia Internacional da Mulher, repetindo a cafajestagem do jogo de abertura da Copa do Mundo.
Aliás, como bem lembrou o artista plástico Fábio Tremonte: “Nem todo mundo que mora em bairro rico participou do panelaço. Muitos não sabiam onde ficava a cozinha”.
Já na zona leste, em São Paulo, não houve panelaço, nem se ouviu o pronunciamento da presidenta, porque faltava luz na região, como tem faltado água, graças aos bom serviços da Eletropaulo e da Sabesp.
Dilma Rousseff, gostemos ou não, foi democraticamente eleita em outubro passado.
Que as vozes de Bresser Pereira e Semler prevaleçam sobre as dos Bolsonaros é o mínimo que se pode esperar de quem queira, verdadeiramente, um país mais justo e fraterno.
E sem corrupção, é claro!

quinta-feira, 5 de março de 2015

Seleções Públicas - Bolsas IPEA



O  Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) o tem interesse em convidar pesquisadores para colaborarem nos estudos e projetos do Instituto, por meio da concessão de bolsas de pesquisa, com foco nos objetivos definidos no Planejamento Estratégico 2023. As Bolsas foram criadas para contribuir com o aperfeiçoamento intelectual e profissional dos bolsistas, e também para promover o intercâmbio entre profissionais do Ipea e instituições similares, organismos públicos e universidades.

As bolsas são concedidas em diversas modalidades, de graduandos a doutores, por meio do Programa de Pesquisa para o Desenvolvimento Nacional - PNPD. A seleção é efetuada de acordo com os projetos que têm necessidade de contribuição de bolsistas, por meio de chamada pública, a qual estabelece requisitos e critérios de seleção, divulgadas na página do Ipea.

Para se candidatar o interessado deve acessar o conteúdo das chamadas e, se atender aos requisitos, cadastrar seu currículo e selecionar o projeto de pesquisa de seu interesse. 

Podem se candidatar:
- Profissionais que estejam cursando ou que tenham concluído algum curso de graduação ou pós-graduação e que se disponham a complementar sua formação intelectual e profissional, participando da execução de projetos doIpea;

- Profissionais de instituições similares ao Ipea e de outros órgãos públicos e universidades que se disponham a intercambiar conhecimento e experiência com o Instituto;

- Servidores inativos do Ipea ou de outras instituições, com reconhecida competência e experiência, que se disponham a contribuir em projetos de pesquisas, em atividades do planejamento governamental e em programas internos de capacitação de servidores.


Fonte: IPEA

domingo, 1 de março de 2015

A histeria despolitizada com a falta de água; ou a velha e boa manipulação da mídia

Por João Sette Whitacker, no Blog cidadesparaquem.org 
Agora que a ameaça da falta de água se abateu de vez sobre os paulistas, uma histeria coletiva tomou a população que, em sua maioria, curiosamente não deu atenção ao fato há alguns meses, ou não o achou importante ao ponto de impedir que referendasse no primeiro turno o principal responsável por tal tragédia.
Quando a vaca foi pro brejo (sem água) de vez, assistimos a uma sutil, mas como sempre bem orquestrada, despolitização dos fatos. De umas semanas para cá, a questão da água, ao ler a grande mídia, não é mais um problema do Estado de São Paulo, mas do Brasil, senão do mundo. Apressam-se em noticiar que o Rio de Janeiro também está colapsando. Alguns aventaram que a falta de água em SP é causada por desequilíbrios na Amazônia. A seca, sempre ela, ainda é o centro das atenções, embora aos poucos o regime de chuvas de fevereiro e março esteja se instaurando, nem tão fora do normal quanto se anunciou. Até o prefeito Haddad vem sendo culpado por dar mais atenção às bicicletas do que à soluções para trazer água de volta (aviso: o abandono da prioridade ao automóvel é uma das melhores medidas a longo prazo para atender à questão hídrica).
Sutilmente, editoriais e colunistas começam a "despolitizar" a questão no âmbito estadual, para "politizá-la" no âmbito mais geral. São todos culpados, do prefeito à presidenta, o que dilui, evidentemente, as responsabilidades. Eliane Brum, em (bom) artigo recente (clique aqui), chega a escrever, ao desolar-se por não termos uma liderança estadista, que "nosso desamparo é maior porque não temos essa figura nem no governo de São Paulo nem no governo do pais". E continua: "no Planalto, temos uma presidente vendida como gerente (...) mas que se mostrou uma má gerente ainda no primeiro mandato". Não estou aqui escrevendo para discutir de Dilma é boa ou má gerente, sequer para defendê-la. O que quero dizer é que sutilmente se desloca uma responsabilidade muito específica no âmbito estadual para uma dimensão genérica, a "dos governantes em geral", logicamente envolvendo a Dilma. A lógica é clara: se é para afundar o governador por causa da água, que afundem todos no mesmo barco (ou melhor, encalhem, não há mais água). Porém, neste caso, não há por onde escapar: a responsabilidade e prerrogativa da política pública de água em São Paulo, nos mais de 350 municípios que têm convênio com a mesma, é da Sabesp, empresa controlada pelo Governo do Estado, que achou por bem lançar ações na bolsa de NY enquanto que aqui deixava armar-se o mais escandaloso e criminoso colapso de gestão pública de que tenhamos notícias.
É claro que em tempos atuais, a delicada questão da água tem a ver com a escassez da mesma no mundo, tem a ver com as políticas federais, tem a ver com a seca, etc. Porém, que não nos façam de tolos: para além de tudo isso, a crise específica que São Paulo vive é de total responsabilidade do Estado, que formula as políticas, e da Sabesp, que as aplica. Por isso, querer a estas alturas, face à emergência do colapso, levantar todas as outras causas, estruturais e históricas, é um embuste. A seca até pode afetar o sistema, mas um bom sistema tem que ter planejado inclusive a possibilidade de secas.
Ora, o que menos vemos aqui é planejamento. Há alguns dias em seu blog (leia aqui), o jornalista Maurício Tuffani relembrou entrevista do professor de ecologia da USP Paulo Nogueira Neto, que alertava que "a água de SP está no fim" em....1977! Nosso colapso não surgiu do nada por causa de secas (previstas, aliás), longe disso. Há anos e anos que a Região Metropolitana de São Paulo (RMSP) vive o que se chama de "estresse hídrico", ou seja, gasta mais água do que é capaz de obter. Aliás, a RMSP gasta mais de quatro vezes a capacidade de captação de todo o Estado. São, pelo que sei, cerca de 70 mil litros de água consumidos por segundo. Nesse ritmo, com ou sem seca, não há sistema que aguente, embora, como lembraremos adiante, isso não seja nada ao lado do consumo industrial e agropecuário. E os políticos que governaram nosso Estado sabiam disso, há décadas.
É comum as pessoas acharem que não há muito a fazer, que isso é decorrência "natural" de uma urbanização acelerada e caótica. É assim em qualquer lugar, pensam. É um pouco o mesmo raciocínio de quem pensa que a desigualdade social na cidade é fenômeno "normal" decorrente de uma "urbanização acelerada". Não são, nem um nem outro. O gigantismo de uma cidade dificulta sempre as coisas, mas há inúmeras metrópoles que atingiram tamanho gigantesco sem por isso nem ter problemas com água nem apresentar as nossas disparidades sociais. Não, nada disso é "natural": é sim resultado de uma falta crônica de planejamento, de um descaso absoluto do Estado ou, melhor, de um planejamento "as avessas" em que o que se objetivou foi um sistema de privilégio aos mais ricos e de promoção da desigualdade que, algum dia, teria que colapsar. 
Ou seja, diante de um quadro que se evidenciava há tanto tempo, a obrigação do Governo do Estado era só uma: fazer o correto planejamento da política de abastecimento de águas, o que é muito, mas muito mais do que apenas construir um sistema de abastecimento (in)eficiente. Passava por trabalhar a gestão conjunta com os prefeitos da Grande São Paulo, montando um gabinete exclusivo para essa questão; por estruturar políticas de educação cidadã nas escolas, nas faculdades, nas repartições públicas, sobre o correto uso da água e a importância de sua economia; por criar políticas de incentivo ao reuso da água e à captação das águas pluviais em casas e condomínios; por refletir conjuntamente sobre as políticas municipais de regulação urbana para evitar a construção predatória que acaba com as nascentes e impermeabiliza o solo. E, sobretudo, por promover uma regulação do uso fenomenal de água pelas indústrias e o agronegócio, e estruturar uma política de captação de água em outras áreas, mais distantes às vezes, que se adiantasse ao crescimento da cidade, e não levasse o governo a correr atrás do prejuízo.Tudo isso deveria ter sido iniciado há pelo menos dez anos atrás.
Nova York, por exemplo, é famosa por ter realizado um planejamento a longo prazo e criado uma política de captação que vai buscar água puríssima em montanhas a centenas de quilômetros da cidade, sustentando com isso todo um programa de agricultura ambiental mas regiões de captação (leia aqui reportagem do Globo Rural). A cidade compra terras com antecedência, garantindo nascentes para suprir o crescimento da demanda. Enfim, a isso se dá uma nome: política pública bem realizada, planejada a longo prazo. Tudo que não tivemos e nem temos em São Paulo.
Aqui tudo foi bem diferente. Políticas públicas dessa magnitude apresentam a dificuldade de levarem tempo para serem operacionais. Nesse sentido, a possibilidade de continuidade de gestão, sem as interrupções que no Brasil, a cada quatro anos, levam ao desmonte de todas as políticas em andamento feitas pelo governo anterior, é um privilégio político invejável. Ora, o PSDB, ao conseguir manter-se por mais de duas décadas no poder, não tinha a obrigação, mas o dever de aproveitar-se dessa perenidade possível para estruturar políticas únicas no país. É o mesmo caso do metrô. Ao invés disso, deixou colapsar o sistema de abastecimento de água e fez um metrô a passo de tartaruga que hoje é cinco vezes menor que o da Cidade do México (iniciado na mesma época). E a mídia, em seu incrível esforço de blindagem, consegue desviar a atenção para um foco genérico em que a responsabilidade do Estado fica difusa. Um escândalo. Está certo falar da Petrobrás (pintando um quadro em que ela se afunda, o que está muito longe da realidade), mas não está nada certo que metrô e Sabesp, comparativamente, sumam do noticiário. Enquanto se transfere o "problema" da água para questões ambientais globais, a Sabesp, envergonhada, some com seu nome na fachada do cineclube que mantém em Pinheiros. Tenta ser esquecida.   
Aqui, nunca nada foi feito. A água sempre foi dada por abundante, e a Sabesp tratou a questão com soberba. Um exemplo simbólico, mesmo que menor, da sua maneira de agir: há vários anos, em Pinheiros, um prédio alto de luxo construiu tantos subsolos que a água do lençol freático, desviada, começou a brotar permanentemente na calçada. Seus moradores pensaram em um sistema para recuperá-la e utilizá-la para lavagem das áreas comuns e da própria calçada. Foram proibidos pela Sabesp, sob pena de multa. A água jorra até hoje. Mas a falta de planejamento é muito mais grave do que esse fato corriqueiro. Poucos sabem que o uso doméstico de água no Brasil corresponde a menos de 10% do total, e que aqui também a maior parte da água fornecida pela Sabesp vai para uso industrial e para o agronegócio. Mas nunca foi apresentado à sociedade um plano de longo prazo, sobre o consumo e a responsabilidade dessas empresas, que estas sim consomem MUITA água. Quase 2 milhões de metros cúbicos ao mês. E sequer se sabe quanto elas pagam ou quanto gastam, a Sabesp dando-se o direito de recusar, em mais um ato escandaloso, a difusão dessas informações (leia aqui). Então, é claro que é importante você economizar água na hora escovar seus dentes, mas, convenhamos, soa pequeno se sequer sabemos o que as empresas, as grandes consumidoras, estão de fato fazendo nesse sentido, em processos que representam alguns milhões de escovações.  
A Sabesp, aliás, perde mais de 30% da água que distribui, boa parte em vazamentos de seus canos. Verdade seja dita, esse é um problema de difícil controle e solução, e é assim em muitos países (a França tem perdas de cerca de 20% - veja aqui - e o Canadá, sujeito a variações térmicas fenomenais, de cerca de 15%). Mas cobrar do cidadão apavorado multa de R$ 1000,00 de quem desperdiçar água, como votaram os vereadores de SP recentemente, sem votar ao mesmo tempo ao menos uma campanhazinha de conscientização, quando a própria empresa não consegue resolver seu enorme desperdício, soa injusto.
Outra argumentação que de repente volta ao noticiário como grande vilã da falta de água é a da "urbanização predatória" de São Paulo e sua região metropolitana. É a pura verdade, mas, no meio dos urbanistas do qual faço parte, há décadas que alertamos sobre os efeitos maléficos da urbanização descontrolada, em que o mercado da construção civil faz mais ou menos o que quer onde quer, sem que seja dada lá muita atenção ao nosso esforço. Impermeabilização do solo, construção irrestrita com subsolos ambientalmente criminosos (como os andares de estacionamentos dos shoppings), desarborização, etc, etc, são atos que de fato têm consequência, irremediavelmente, sobre a permeabilidade do solo e o escoamento das águas, afetando a captação pelos rios e a alimentação dos mananciais.
Mas isso vem ocorrendo há anos, e quando apontava-se para o fato, ninguém deu muita bola. Prova disso a relativa indiferença que causou aos paulistanos um dos maiores escândalos já vistos nesse âmbito, que implicou muito de perto o nosso atual Ministro das Cidades. Sob sua gestão, o Diretor Geral de Aprovações da cidade montou uma verdadeira máquina de propinas para negociar novos empreendimentos. Até hoje não se foi a fundo nessa investigação, que curiosamente sumiu do noticiário (seria porque o ex-prefeito é agora ministro?). Os paulistanos pouco se opuseram ao estranhíssimo fenômeno de geração espontânea de shoppings na cidade (mediante bons pagamentos, como denunciou gente de uma das construtoras), ocorrido ao longo da última gestão, sem querer atentar que, ao mesmo tempo que garantem suas compras e finais de semana enclausurados, esses edifícios gigantescos contribuem, e muito, com a tal "urbanização predatória" e a falta de água.
Então, a histeria que agora tomou conta da cidade é um pouco deslocada, principalmente quando vêm das classes mais altas, que mais contribuem para o consumo de água (os grandes condomínios, mansões, carros a lavar, etc. etc.). Ao acusar tudo e todos, escamoteia o principal. Sim, nossa urbanização e nossa sociedade elitista e hiperconsumista ajudam para acabar com a água do mundo, mas nosso problema é um grave e inaceitável fiasco local de gestão, cujas responsabilidades devem ser cobradas. Dizem que em Araçatuba uma senhora atirou o carro contra outra moça que lavava a calçada. "A água do mundo está acabando!", gritou (sem sequer saber se a água da lavagem por ventura não era, por exemplo, de reuso, e sem atentar para o a insustentabilidade do uso do carro - talvez para ir ao shopping). A falta de água no mundo substituiu no imaginário coletivo a incompetência e improbidade da Sabesp e do Governo do Estado e suas secretarias.
Também é verdade que governo federal e municípios têm sua parte de responsabilidade, já que parte da gestão é compartilhada (como no caso do sistema cantareira em que algumas das represas são de gestão federal) e que a competência sobre o uso do solo é municipal. Mas, ainda assim, não se pode equiparar o nível de responsabilidade de cada um.Os Comitês de Bacias Hidrográficas, criados em 1988 junto com o Sistema Brasileiro de Gerenciamento de Recursos Hídricos apontaram um bom caminho para a gestão das águas. Mas, como muitas coisas em nosso país, salvo poucas exceções, se perderam nas disputas políticas e na burocratização.
É claro que precisamos economizar. É claro que este tipo de problema, quando se torna tão grave, passa a depender da ação individualmente responsável de cada cidadão. Mas, como sempre, a falta d´água os afetará de maneira bastante desigual. Os bairros ricos, consolidados,de baixa densidade habitacional, com caixas d´água enormes e funcionais, sobreviverão com algum desconforto ao racionamento e não terão problemas em comprar caminhões-pipas se necessário. Os mais pobres, porém, é que sofrerão, como diz a urbanista Marússia Whately em excelente texto (clique aqui):
"Uma coisa são cinco dias de racionamento em bairros consolidados e bem estruturados do centro expandido, com situações mais previsíveis. Outra coisa, bem diferente, é o racionamento em locais como a zona leste, com áreas inteiras de ocupações informais, poucas caixas d’água, vários moradores por casa, pessoas que costumam sair muito cedo para o trabalho e retornar às vezes muito tarde por conta do tempo no transporte (o que pode significar não estar em casa em nenhum horário de fornecimento de água)".
A prefeitura tem seu papel nisso. Já começou a agir quando reuniu os prefeitos da Região Metropolitana para emanar uma posição comum. Será melhor ainda se elaborar um plano de contingência e regular a maneira como se dará o uso racionado na cidade. Melhor seria se dispensasse de vez os serviços da Sabesp, municipalizasse o sistema e estruturasse uma política de gestão autônoma em parceria com os municípios da Região Metropolitana (melhor eu parar de sonhar). É claro que todos nós devemos nos envolver nesse mutirão de contenção. Mas uma coisa deve ficar clara: tudo isso são esforços meramente conjunturais, e não resolverão a situação da cidade, mesmo que comece a chover. Vale reiterar: falta água no mundo, mas o que estamos falando aqui é da falta de água na metrópole paulistana em decorrência de um colapso de gestão. São coisas bem diferentes. E a economia individual de cada um ao escovar os dentes e tomar banho, coisas que deveriam ser práticas preconizadas por políticas de conscientização da Sabesp há tempos, poderão ajudar um pouco, mas não resolverão o problema.
A grande questão é saber qual a "solução" que está por vir. Pois uma coisa é pouco falada: a Sabesp, como empresa com ações na bolsa de NY, com 51% delas em poder do Estado de São Paulo, é uma empresa quase privatizada. A desmoralização que ela enfrenta, por sua incapacidade de gestão, tem poder para abater o preço de suas ações, e até para ser condenada pela justiça norte-americana. Um passo muito pequeno para que surja, em uma sequencia quase previsível, o discurso de uma necessária e "eficaz" privatização total. Sabemos que companhias de águas - em especial europeias - interessam-se e muito pelo mercado brasileiro, o que dizer então da uma das maiores metrópoles do mundo. Quem viu o documentário "The Corporation" (recomendo) sabe do exemplo histórico de Cochabamba e o modus operando dessa empresas. Se estamos mal, ainda estamos longe de onde se pode chegar na privatização da água e sua transformação em mercadoria, escassa para os mais pobres.
Enquanto isso, o esforço genuíno dos cidadãos, responsáveis por pequena parte do uso total de água,  e que parecem resignar-se com a situação, soa ainda mais ineficaz enquanto o Governo e a Sabesp não apresentarem um plano - público - de curto, médio e longo prazos para a recuperação da capacidade de provisão de água na metrópole. O que passa, evidentemente, por indicar o que está sendo feito para conter os 70% da água fornecida para uso industrial e para o agronegócio. Senão estamos fazendo papel de bobos. E ao mesmo tempo ajudando, ao assimilar sem protestos uma campanha erroneamente centrada no usuário comum e na sua "culpa" pelo desperdício, a fortalecer a blindagem que, espantosamente, protege o governo e sua empresa de água. A cidade pode sim ter água, e temos o direito de saber como isso será feito. O que me espanta é que São Paulo tenha mostrado energias para uma maravilhosa e histórica mobilização contra 20 centavos a mais no preço dos ônibus, mas parece resignar-se à economizar água sem mover uma palha para protestar contra o descalabro de terem deixado secar a quarta maior metrópole do mundo. 

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